A Batalha do Sucesso – Homem Adulto Enfrenta Kibe de Um Quilo e Trezentos Gramas

Fotos: LEANDRO FURINI | Texto: JOE BORGES | Produção: DANIEL KUBALACK| Filmagem: TUNGSTÊNIO

Quem aprecia um bom boteco, e os quitutes que lhe são peculiares, com certeza já teve experiências íntimas com o bolinho de carne e trigo mais querido do planeta, o kibe. Original do Oriente Médio, este tradicional acepipe foi trazido para o Brasil por imigrantes sírio-libaneses há mais de uma centena de anos atrás. O sucesso foi tamanho que o alimento se tornou figura carimbada de bares, padarias, restaurantes, feiras e festas de crianças, devido ao seu carisma extraordinário e facilidade de preparo. Não à toa, o salgado carrega em seu nome uma das grandes paixões do brasileiro. Em árabe, kibe deriva da palavra kubbeh, que significa bola. Com forte entusiasmo pelo quitute, Zaso Corp. não poderia deixar de se embrenhar nos meandros deste universo fascinante. Informados de que um bar localizado no centro de São Paulo oferecia aos seus clientes um enorme espécime de kibe, feito sob medida e suficiente para abalar as estruturas da alimentação nacional, nossos correspondentes resolveram transformar o local em palco de louco desafio envolvendo juventude, coragem, alimentação excessiva e tatuagem.

Há pouco mais de meia década atrás, o produtor zasóide Daniel Kubalack, conhecido por pilotar um Ford Ka de cor branca e ser fã da banda de róque mascarado Kiss, cursava publicidade na faculdade Mackenzie. Como aluno exemplar que era, passava boa parte de seu tempo estudantil tomando aquela cagibrina em botecos da região. Essa prática fez com que ele adquirisse conhecimento de causa excepcional quando o assunto fosse acepipe, álcool e azaração. Assim sendo, não demorou para que elegesse seus recantos favoritos. Dentro deste seleto clube, se destacaria o Sucesso’s Bar. O local passou a obter fama por conta de seus litrões de Brahma baratos e salgados estonteantes. O seu kibe, que inclusive é capa de sua rede social, possui envergadura suficiente para servir de almoço a pessoas de médio porte, se tornando rapidamente sucesso entre os mais diversos meliantes. Em paralelo, o estabelecimento passou a fritar coxinhas gigantescas, com mais de um quilo de massa corpórea. A atração chegou aos sete cantos do mundo, fazendo com que amigos e inimigos viessem juntos ao local para dividir o alimento. Fascinado com tal prática, Daniel imaginou como ficaria um kibe do mesmo tamanho que a enorme coxinha, unindo toda a graciosidade do bolinho de trigo, carne e queijo (ingrediente especial da casa) com a amplitude gravitacional de um salgado de mais de um quilo. Ao ficar sabendo deste íntimo desejo, Zaso Corp. apoiou a idéia e se aproveitou de uma louca parceria que o bar possui.

Logo na entrada do estabelecimento, colado a uma geladeira, um anúncio chama a atenção. Se trata de uma promoção em que o cliente do bar que ligar para um determinado número telefônico, no caso o celular de Hilton Péricles, tatuador profissional, e disser que é cliente Sucesso’s Bar, tem metade de desconto em sua tatuagem. Com isso em mente, os zasóides tiveram a cretina idéia de levar um mártir para devorar sozinho um kibe de um quilo e trezentos gramas e, em seguida, tatuar o salgado em alguma parte de seu esbelto corpo. O desenho foi criado pelo zasóide Jonas, que uniu o carisma do kibe, o embasamento do prato e a unanimidade do limão. Mas quem seria este guerrilheiro da gastronomia? Andreas Felix, amigo, confidente e companheiro de aventuras etílicas dos nossos correspondentes. Conhecido pela habilidade/resistência em se alimentar, e por ser entusiasta do desenho corporal conhecido como tatuagem, o rapaz, que é amigo de bairro de Daniel, e frequentador assíduo do local, logo aceitou o desafio. Começaria ali uma verdadeira epopéia.

Capítulo 1: O Pouso

O dia escolhido para a epópeia foi um ensolarado sábado. Daniel combinou tudo com Josevan dos Santos Teixeira, proprietário do Sucesso’s Bar, para que já deixasse a postos o preparo do kibe supremo, alertando-o para que esperasse seu sinal para fritar o salgado, que demora cerca de quarenta minutos para ficar pronto. Além dos zasalhas e de Andreas, mais dois convidados teriam papel essencial nesta saga: Fred Siviero e Pedro Bruno, responsáveis pela produtora videográfica Tungstênio. Amigos pessoais dos envolvidos, estariam presentes para filmar a saga, motivados por um projeto secreto da qual nossos correspondentes não estão autorizados a falar a respeito.

Jonas foi o primeiro a chegar no bar, depois de se esbaldar com alimentos em um restaurante a quilo na região. Já devidamente assentado em uma cadeira amarela da Skol, e desenvolvendo perguntas a serem feitas para os protagonistas da saga, avistou os tungstênios chegando confiantes, de equipamentos em mãos. Após breve conversa, os convidados de honra foram inspecionar o local para se organizarem de maneira adequada para a captação de imagens. Alguns minutos depois, Leandro surgiu, portando sua câmera e seu braço esquerdo engessado, fruto de uma queda durante a prática do perigoso esporte conhecido como skateboard. Juntos, os quatro conversavam acerca do que poderia ser feito, enquanto esperavam pela chegada de Daniel e do nobre desafiante. Quinze minutos se passaram até que o inconfundível automóvel de Daniel passasse incólume em frente aos jovens, só poderia ser a carroagem real. Os dois heróis vieram chegando pela calçada, enquanto os tungstênios e zasóides os olhavam com orgulho. Ao chegar perto dos espectadores, Andreas prendeu o pé num desnível na calçada, tropeçando rocambolescamente e dando uma pequena trotada para retomar a compostura, acompanhada de um riso fanfarrão. O grande momento chegara.

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Andreas Felix, o desafiante, segundos após chegar em grande estilo, tropeçando em um pequeno desnível na calçada.

Com a chegada dos meliantes, a trupe estava completa, era uma questão de agilizar os últimos preparativos antes da grande batalha. Enquanto Daniel terminava de conversar com Josevan, e pedia um excelentíssimo x-burguer, os tungstênios se preocupavam em começar a fazer cinema, armando seus equipamentos da melhor maneira. Os zasóides sentaram-se, então, em uma mesa na calçada para tomar aquele litraço e saber o que se passava pela mente do desafiante. Estaria nervoso? Tímido? Ótimo? Qual fora sua última refeição? O que pesa mais, um quilo de kibe ou um quilo de algodão? Eram questões que latejavam de urgência em serem respondidas.

Capítulo 2: O Gladiador

O paulistano Andreas Felix tem vinte e sete anos, muito bem vividos, e é cria do bairro do Tatuapé, onde ainda reside nos dias atuais. Amante de aventuras e sem ter a menor vergonha de ser filmado comendo, afirmou estar confiante, tendo se preparado para o desafio não se preparando, o que não deixa de ser um tipo de preparo. Alimentado apenas no dia anterior, com algumas guloseimas de sua casa, nos confidenciou fome, informação rica e que parecia jogar a favor do guerreiro. Para ele, a definição de comer é se alimentar do máximo de comida no menor tempo possível. A primeira vez que o palmeirense comeu kibe foi ainda criança, devorando o acepipe feito em forno por sua mãe. A partir dali, começaria uma linda história de amor e alimentação. E por falar em linda história, afirmou que sua mãe, que é entusiasta do salgado, estava ciente do desafio que seu filho estava prestes a encarar, apesar de ter se mostrado mais preocupada com a quantidade de álcool que Andreas iria ingerir ao longo do dia do que com o kibe em si. Nosso desafiante, que tem como escutar aquela canção intensa e desenhar, nos disse que bebe porque acha bom, principalmente com os amigos por perto. Questionado sobre o ato de beber sozinho, fechou a cara levemente, explanando que esse caso pode ser bom ou pode ser perigoso. A última vez que Andreas consumira álcool fora na noite anterior, em um aniversário regado a sinuca, cantoria e cachaça. Apesar de ter acordado levemente ressacado, o ato não parecia incomodá-lo. Perguntado sobre qual a última vez que comera kibe, nosso herói respondeu que esteve no Sucesso’s Bar há poucos dias atrás, tendo consumido o alimento durante sua estadia, que contava com a presença de Daniel Kubalack, que, a esta altura, já comia seu x-burguer com muito entusiasmo, derrubando alguns farelos em suas próprias vestes. Ninguém é perfeito. Em meio ao assunto, que fluía feito maionese de rodoviária, Josevan irrompe em meio aos zasóides, avisando que o kibe estava pronto. Imediatamente, os jovens explicaram-no, novamente, que ainda não era o momento de soltar a bomba, todo um cenário extremamente precário ainda seria cenografado para a chegada do mesmo. O proprietário, de maneira muito bem-humorada, voltou-se para dentro do bar, tendo entendido o recado, que fora dado por Daniel. A solução foi segurar aquele bebê para alimentar a produção e fazer outra espécime para Andreas, já que as lentes afiadas de Fred e Pedro necessitavam acompanhar o processo de feitura do salgado.

03Passado o momento de leve tensão entre os envolvidos, Andreas voltou a conversar com nossos correspondentes. Além de acreditar nunca ter contraído doenças sexualmente transmissíveis, nosso desafiante afirmou gostar de kibe numa escala nove de dez. O que faltaria para chegar ao nível máximo de pontuação? Encontrar o kibe perfeito, busca que poderia estar chegando ao fim em instantes. Apesar do apreço pelo acepipe, afirmou que não é seu salgado predileto, perdendo por pontos para o sonho de noiva e para o bolinho de carne, que não deixa de ser um parente próximo do kibe. Andreas, que tem como musa inspiradora Monica Bellucci, disse que nunca chegou a comer nada com tanta massa corpórea quanto o futuro desafio, mesmo já tendo se atracado com sanduíches e hamburguers brutais. Enquanto concluía seu raciocínio, Andreas alertou a equipe Zaso Corp. que um caminhão pipa estaria jogando água em direção aos jovens, tampando imediatamente seu copo de cerveja. A estreita Rua Dr. Cesário da Mota Jr. parecia não comportar o veículo, que desfilava lentamente enquanto destilava água por todo o asfalto. Uma pausa foi necessária. Em meio ao ocorrido, uma correria acontecia do outro lado da calçada, chamando imediatamente a atenção de todos. Os poucos populares que estavam no Sucesso’s Bar se ouriçararam com o burburinho, enquanto clientes do boteco que ficava em frente ao foco de confusão pareciam apontar para um rapaz que sumia correndo no horizonte. Rapidamente, a informação de que o homem em questão havia roubado o celular de uma senhorita chegou ao ouvido de nossos protagonistas. Em menos de dois minutos, um verdadeiro caos instaurara-se. Infelizmente, o meliante escapou.

Mais uma vez, com a paz restaurada, os zasóides se sentaram para finalizar o pré-jogo com Andreas, que se pudesse dividir um kibe com alguém, faria-o com Gal Gadot, atriz que pratogonizou o filme Mulher-Maravilha. Por outro lado, se pudesse roubar o direito de alguém de consumir o salgado, seria do jornalista e corintiano chato Chico Lang, figura deveras controversa do jornalismo esportivo brasileiro. Estudos feitos na própria mesa do bar afirmaram que o jornalista possui feições de quem gosta muito de kibe, o popular kibeiro. Ainda na onda dos famosos, ou semi-famosos, Andreas destacou que o ator Cauã Reymond é a celebridade que menos se parece com o salgado, mudando de idéia quase que imediatamente, ao perceber que ele se assemelha sim, e muito, a um kibe. Além de acreditar que a pilada, ou martelada, seja a parte mais importante da confecção do salgado, e que um quilo de porpeta pesa mais do que um quilo de algodão, e de kibe, terminou o relato com o pau na mesa, afirmando que gostaria de dedicar a música Dust in The Wind, da banda Kansas, para o kibe monstro que estaria prestes a encarar. Este foi o decreto para que os presentes levantassem-se da mesa e adentrassem o estabelecimento, autorizando Josevan a iniciar o preparo do novo bebê.

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Andreas Félix, 27 anos, é natural de São Paulo e candidato a devorar o kibe monstro de um quilo e meio do Sucesso’s Bar. Confiante em seu potencial, tem como hobby escutar aquela canção intensa e desenhar. Se preparou para a missão não se preparando e acredita que Cauã Reymond é o famoso que menos se parece com um kibe, apesar de ter mudado de idéia quase que instantaneamente ao perceber que ele se parece sim com o salgado.

Capítulo 3: Eu Estive Lá

A equipe se dividiu. Leandro foi tirar algumas fotos do processo de concepção do kibe, acompanhado de Fred, enquanto Jonas, acompanhado das lentes de Pedro, entrevistava Fabio, funcionário do estabelecimento e responsável por atender os jovens. Do lado de fora, Daniel motivava Andreas com palavras calorosas e motivadoras. Quanto ao atendente entrevistado por Jonas, além de ter estreita relação com o local, o rapaz possuía um relato importante a ser feito: Já havia encarado o salgado gigante, apesar de tê-lo feito em sua forma de coxinha.

Nascido em Campos do Jordão, há 29 anos atrás, Fabio mora em São Paulo há cinco, sendo que três destes anos foram dedicados ao Sucesso’s. O que mais gosta de fazer é dormir e tomar uma cervejinha com os amigos, principalmente se for uma Weiss acompanhada de um bom kibe, salgado que muito lhe agrada, apesar de seu alimento predileto ser massa. Extremamente crítico quando o assunto é comida, Fabio já trabalha no ramo dos restaurantes e estabelecimentos alimentícios há mais de doze anos, conhecendo bem o caminho das pedras da profissão.O funcionário não mediu elogios ao salgado do local, afirmando que a massa é bastante diferenciada, com temperos e preparo que possuem um toque de mistério. Não entrou em maiores detalhes pois, apesar dos zasalhas estarem autorizados a filmar no local, Fabio não podia contar o segredo da especialidade do Sucesso’s Bar. O rapaz, que gostaria de ter um carro conversível, sabe andar muito bem de bicicleta e se tivesse que ressucitar uma celebridade, ressucitaria Elvis Presley.

Enquanto a canção Baba O’Riley, da banda britânica The Who, tocava ao fundo, embalada pelo jukebox, contrastando diretamente com o jogo de futebol entre Real Madrid x Granada, pelo Campeonato Espanhol, Fabio afirmava que sua maior gafe na vida foi ligar para uma senhorita, com quem mantinha relações íntimas, achando que era outra garota, que também lhe era muito próxima de seu corpo. Obviamente, levou um esporro das galáxias. Depois de algumas sinceras risadas, voltou ao assunto gastronômico, deslanchando a falar sobre sua experiência com o salgado enorme do local. Há mais de um ano atrás, em momento fora de expediente, o atendente se encontrava no local com seus amigos, quando surgiu a idéia de pedir a popular coxinha gigante do Sucesso’s. Quando o apetitoso quitute chegou à mesa, os quatro amigos resolveram dividir o alimento entre si. Apesar de não ter encarado sozinho o alimento, Fabio afirmou que ele e seus colegas demoraram cerca de uma hora para finalizar o adversário, o que causou enorme satisfação entre os presentes, ao final da batalha. Segundo o próprio, ninguém nunca tentou comer o salgado sozinho. Andreas seria o primeiro a possivelmente consumar a façanha. Para finalizar, Zaso Corp. pediu para que Fabio desse um conselho para o nosso gladiador. Com muita humildade, aconselhou-o a esquecer de tudo ao redor, focar no kibe, não beber cerveja (tarde demais) e tomar uma água para dar aquela assentada no acepipe.

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Fabio, 29, é nascido em Campos do Jordão, mas mora em São Paulo há cinco anos. Muito crítico quando o assunto é alimento, já encarou, acompanhado de mais três amigos, a coxinha gigante do local, tendo demorado mais de uma hora para devorá-la. Além de querer ressucitar Elvis Presley e ter um carro conversível, Fabio aconselhou Andreas a esquecer todo o mundo ao redor e focar no kibe.

02Capítulo 4: Criador e Criatura

Enquanto isso, na cozinha do Sucesso’s Bar, o outro núcleo zasóide acompanhava o preparo do kibe monstro. O pequeno cômodo mal conseguia comportar a presença dos envolvidos. Quem colocava a mão na massa era o próprio Josevan, acompanhado de um de seus assistentes. Conhecido pelos mais íntimos como Ivan, o baiano de Cícero Dantas, nascido há quarenta e nove anos atrás, mora na cidade de São Paulo desde 1987. Antes de ter o bar, trabalhou em outro lugar na região, no El Kabron, também localizado no bairro da Vila Buarque, centro da cidade. Foi lá que trouxe à tona para o mundo gastronômica botecário sua grande criação, um salgado completamente fora dos padrões nacionais. Em sua própria residência, anos antes, já confeccionava kibes iguais aos que vende, recheados com queijo e de massa maior do que o natural. Tendo tomado coragem, resolveu apresentar seu salgado para seus superiores, que gostaram da idéia e acrescentaram o acepipe ao cardápio. O sucesso foi imediato. Anos mais tarde, mais precisamente no dia doze de junho de dois mil e quatorze, Ivan iria adquirir seu estabelecimento, comprando-o com o dinheiro que ele e sua esposa juntaram. Aproveitando um de seus bordões mais peculiares, chamou o local de Sucesso’s Bar, trazendo consigo seus kibes e uma boa parte da clientela que tanto lhe considerava. O comércio não tardou a deslanchar. Enquanto conversava com a rapaziada, Ivan montava a massa do novo kibe dentro de uma bacia, misturando os ingredientes com farinha e moldando-o até o ponto em que parecia uma bola de futebol americano.

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Ivan em ação.

090710A confecção do kibe ia ficando cada vez mais intensa, a iguaria ia tomando forma e já estava quase pronta para ser frita. Ivan demonstrava ter total domínio da situação. Perguntado sobre o início da prática de produzir os salgados gigantes, o apreciador de Skol gelada contou que tudo começou há pouco mais de um ano atrás, quando um grupo de amigos que iriam comemorar aniversário no local pediu para que ele fizesse uma coxinha gigante ao invés de um bolo para o aniversariante. Sabendo do ocorrido, um de seus amigos próximos colocou o salgado nas redes sociais, o que fez com que a idéia viralizasse e o pedido se tornasse cada vez mais constante. Segundo Josevan, assim como disse Fabio, ninguém nunca tentou comer a iguaria por conta própria. Geralmente, o pedido é feito por amigos que pretendem dividi-la. Apesar do kibe ser maior sucesso de vendas do que a coxinha, o proprietário confidenciou que esta seria a primeira vez que produziria um kibaço deste porte para ser vendido e devorado por uma só pessoa. Já havia feito um apenas de amostragem. Perguntado se encararia o desafio, Ivan afirmou que não, em tom de “boa sorte”. Excêntrico, Ivan afirmou que beleza para ele é tudo que é sucesso. Em relação a algo que o tira do sério, disse que fica bastante irritado com pessoas que riem da cara dele durante assuntos sérios. Se você é frequentador assíduo do Sucesso’s Bar, ou pretende se tornar, cuidado ao rir da cara de Josevan, mesmo que involuntariamente, você pode acabar por tirá-lo do sério e perder sua simpatia, tão requisitada por Zaso Corporation. Sua música favorita é Pega Eu, do lendário sambista Bezerra da Silva, e sua principal mania é encaixar a palavra sucesso nas mais variadas situações e contextos. Em meio a confidencialidades e muita ousadia, o nosso anfitrião terminou de confeccionar o kibe. Antes de colocar a bomba para fritar, pesou-a, em frente às lentes dos jovens artistas, numa pequena balança de cozinha, que acusou 1,3kg de pura saliência. Esta informação seria sigilosa para Andreas, já que o mesmo acreditava que o kibe não pesaria mais de uma quilograma. Psicologia reversa em prol da vitória.

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Um quilo e trezentos gramas de pura saliência.
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Um caminho sem volta.

Depois de mergulhar o todo poderoso no óleo fervente, Ivan pôde dar uma relaxada e explicar um pouco melhor sua relação com o tatuador Hilton Péricles, que seria peça fundamental da saga. O tatuador, que é frequentador assíduo do bar desde sua abertura, resolveu trazer esta proposta de promoção justamente por conta de sua fidelidade com o local. Com estúdio nos Campos Elísios, numa região mais próxima da Luz, o profissional conseguiu angariar alguns clientes nas algumas semanas de vida que a promoção possui. Segundo Ivan, nenhum cliente mostrou-lhe tatuagem feita na promoção, afirmando também que não sentiu diferença em relação ao aumento de clientela. Apesar disto, o assunto é recorrente entre os frequentadores que, constantemente, abordam-no para saber mais informações sobre a promoção. Para fechar o assunto com chave de ouro, o anfitrião contou para nossos correspondentes que sua irmã também gostaria de tatuar alimentos em seu corpo. No caso, feijões e temperos típicos, em homenagem ao caldinho de feijão do local, que possui status de tremenda iguaria. E enquanto abordavam o assunto, uma mensagem de Whatsapp chegou ao smartphone de Daniel. Era o próprio Hilton, querendo confirmar se a sessão de tatuagem, que estava marcada para as dezessete horas, estava de pé. O zasóide não titubeou em dizer que sim. Ainda estavam na casa das duas da tarde. Era hora de deixar Josevan e sua gangue voltarem suas atenções cem por cento para seus afazeres. Sorridente, o proprietário voltou para a cozinha, afirmando, em tom de sabedoria, que em breve o grande alimento estaria agraciando o paladar de Andreas.

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Josevan dos Santos Teixeira é o feliz proprietário do Sucesso’s Bar. O baiano de quarenta e nove anos de idade mora em São Paulo desde 1987. Aquela seria a primeira vez que o fã de Bezerra da Silva comercializaria o kibe gigante. Geralmente, em se tratando de gigantismo, quem gira o caixa é a coxinha. Odeia que riam de sua cara e não quis contar o último sonho que teve pelo fato de ser casado.

Com as missões dentro do estabelecimento devidamente cumpridas, só restava ao comboio voltar para a luz do sol e esperar que o kibe chegasse. Alguns minutos de espera seriam necessários. A câmera de Fred, armada em cima de um tripé e apontada para a mesa em que Andreas se encontrava, no meio da calçada, mais para perto da rua, causava estranhamento nos transeuntes. Pessoas das mais variadas formas passavam pelo local e observavam o que aqueles jovens delinquentes estariam aprontando. A atenciosa produção de Zaso Corp. não tardou a ajeitar o cenário de gala para Andreas receber o adversário, vestindo-lhe com um belíssimo babador feito de guardanapo, adquirido no próprio local. Sentado à mesa, que servia de apoio para a cerveja da zasalhada, de frente para a câmera, e de costas para o bar, prontamente munido de talheres, estava nosso guerreiro. Não só o desafiante como todos os presentes eram tomados por uma súbita onda de ansiedade.

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A espera.

Passados quinze minutos desde o momento em que a caravana pisara novamente do lado de fora, Josevan apareceu à porta do estabelecimento, portando sorriso levemente irônico. A notícia que trazia não poderia ser outra, o bebê estava pronto. Ao saberem da ocorrência, todos se prontificaram a esperar a chegada do príncipe. Andreas, aconselhado a não olhar para trás, como um marido que espera a chegada da noiva amada, não conseguia se conter. Assim que Ivan pisou novamente na calçada, os aplausos irromperam no ar. Em suas mãos, uma bandeja prateada, sustentando o apetitoso quitute, que era acompanhado de algumas folhas de salada e pequenas espécimes de kibe, como filhotes de uma mãe obesa. A reação de Andreas foi de sinceridade absoluta, arregalando os olhos e aceitando seu destino. O bar inteiro parou para ver o quitute, como que fosse um carro alegórico durante o desfile das campeãs do carnaval.

Quem veio antes? O homem ou o kibe? Esta é uma questão que não levanta muita dúvida. Por outro lado, quem venceria uma batalha entre um salgado de um quilo e trezentos gramas e um homem adulto de oitenta e dois quilos? Esta sim é uma questão que levanta muita incerteza.

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O milagre.

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Capítulo 5: Um Início Avassalador

Finalmente, o embate seria consumado. Depois de encarar com paixão o seu adversário, Andreas desferiu o primeiro golpe, bem no topo da cabeça do kibe, causando-lhe o primeiro dano. A atenção de nossos correspondentes no começo era total, como se cada movimento feito por Andreas fosse o último de sua vida. Perguntado sobre o que sentia naquele momento, o desafiante respondeu satisfação. A fome que sentia podia, enfim, ser saciada. Os primeiros cinco minutos de batalha mostraram para o mundo um Andreas determinado a cumprir seu objetivo, abocanhando a presa sem dó. Ainda mantendo bom ritmo, Andreas lembrou-se de uma história de sua infância que marcou-o muito. Seu avô, que costumava resolver as coisas de uma maneira um pouco mais brutalóide que o convencional, resolveu ensinar-lhe a nadar tacando-lhe em uma piscina. O desespero do pequeno Andreas fez com que ele superasse sua dificuldade, apesar de quase ter um colapso pulmonar. Esta memória tão enraizada no âmago de nosso protagonista veio à tona por estar se sentindo da mesma maneira com relação ao kibe, só que sem piscina, avô e infância. Quando o assunto é salgado, o aprendizado é diário.

andreas01O início de luta estava excelente, excitante e excêntrico. Cerca de meia dúzia de mordidas bem encaixadas foram o suficiente para mostrar para o super kibe quem é que manda. Vira e mexe, Ivan vinha dar aquela espiadela no desempenho de Andreas, logo continuando seus afazeres. O bar ia enchendo gradualmente, as três da tarde já podiam ser vistas chegando lentamente para ver o que acontecia. Não só ela estava curiosa em saber o porque daquela algazarra, muitos pedestres continuavam a passar olhando para o aparato cinematográfico dos tungstênios e observando Andreas e seus poucos farelos de trigo que teimavam em ficar presos em sua vasta barba. Questionado se estava orgulhoso de si mesmo, afirmou que por um lado sim e por outro não. Sim pois achava a situação legal, e não pois tudo aquilo não fazia o menor sentido. Ao ser perguntado sobre qual a definição de sentido, Andreas titubeou e não soube responder. Um pequeno delírio que provavelmente foi causado pela grande quantidade de kibe que começava a fazer efeito em seu sistema neurológico. Aos poucos, nossos correspondentes começaram a perceber movimentos e estratégias interessantes por parte de Andreas. Por exemplo, o desafiante ter partido, logo de início, para os mini kibes, que na realidade eram salgados em tamanho tradicional, ofuscados pelo campo gravitacional de sua nave-mãe. Uma aposta abusada e que poderia custar-lhe caro mais para frente.

andreas02.pngAcerca de expectativas pós-combate, Andreas disse que esperava defecar de maneira pastosa, hipótese praticamente científica e indiscutível. Em meio aos duros golpes que desferia contra o kibe, Andreas bebericava seu copo de cerveja Skol, que já apresentava tons de aquecimento, dando aquele aspecto de cerveja esquecida no canto da quadra durante churrasco. Entre uma goleta e outra, percebeu ter chego em um importante ponto da luta: o queijo. Em meio a uma bem dada mordida, Andreas sentiu o laticínio entrar em suas veias, era sinal de que ao menos um quarto do gigante já havia sido derrubado. Sobre a expectativa, disse que esperava um queijo bem derretido, o que aconteceu em partes. Pelo visto, não era só o kibe que estava vindo a solo, Andreas já começava a acusar os primeiros indícios de dificuldade em combater o alimento. De maneira natural, largou o salgado pela primeira vez, dando aquela repousada para assentar melhor o kibe.

Capítulo 6: Foco, Força e Fé

Aproveitando que o desafiante estava em modo de quinze minutos, nossos correspondentes lhe perguntaram qual sua opinião acerca de extraterrestres, tema recorrente em entrevistas e questionários zasáicos. Andreas não só acredita em ET’s como tem um certo grau de convicção em já ter visto fenômenos intergaláticos. Quando tinha lá seus doze anos de idade, ganhou um lendário Game Boy Color com o jogo Pokémon, versão de fita verde. Viciado até o osso, não desgrudava do jogo de maneira alguma. Em um determinado momento, foi viajar com sua família para Bertioga, acompanhado de seu novo grande amigo. Em uma das noites de estadia na cidade, enquanto jogava aquela partida ao vivo, sentado na varanda do apartamento, avistou um clarão no céu, seguido de um meteoro que caía em altíssima velocidade. Impressionado, afirma ter visto a sua queda com muita clareza. Quando foi contar para seus pais sobre o meteoro, foi prontamente desacreditado. Falavam que o pequeno Andreas estava viciado em Pokémon’s de fogo. O mundo não está preparado para a verdade.

O tamanho do kibe supremo já havia caído pela metade em menos de uma hora, assim como a disposição de nosso desafiante. Poderíamos considerar um empate técnico, até então. Andreas, que intercalava mordidas cada vez menores e descansos cada vez maiores, já havia mudado um pouco de feições, acusando o golpe. Um bom indicativo para seu estado era o fato de já ter se rendido a uma garrafinha d’água, atitude deveras sensata de nosso guerreiro. Foi exatamente neste momento propício à auto-crítica que Andreas foi questionado sobre o que poderia melhorar nele mesmo, enquanto pessoa física e psíquica. Compenetrado, respondeu que poderia melhorar suas relações interpessoais, sobretudo em se tratando de responder amigos, e inimigos, nas redes sociais. Muitas vezes, acaba sendo relapso. Perguntado sobre um conselho para os mais jovens, disse, sem nem pensar duas vezes, que o futuro de nossa nação não coma um kibe de mais de um quilo e meio. Tomado por súbita energização, Andreas mandou um recado para a geração bunda-mole de jovens nascidos depois da virada dos anos 2000, os popularmente conhecidos como millennials. Segundo ele, essa juventude sabe dançar o Passinho do Romano mas não encara um kibe de um quilo e meio. Um duro golpe de um cidadão adulto e faminto. Foi a deixa para voltar a abocanhar o salgado, um longo caminho ainda esperava-o.

Sentindo que Andreas não estava bem, os zaslhas passaram a bradar-lhe palavras de incentivo. Enquanto Daniel batia na tecla do quão heróica seria sua conquista, Jonas sentou-se ao seu lado, e passou para Andreas exatamente as palavras que Fabio, o funcionário, lhe disse: esqueça do mundo ao redor, foco no kibe e uma água para dar aquela pilada na massa.

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Palavras de incentivo.

O tempo ia naturalmente dando aquela virada de início de fim de tarde. Duas preocupações caiam sob a lomba dos zasóides: luminosidade para as filmagens e a hora marcada com Hilton. Vendo que a saga ainda estava longe de acabar, Daniel passou a trocar algumas mensagens com o tatuador, avisando-lhe que a missão estava se extendendo mais do que o imaginado e que possivelmente iriam se atrasar. Compreensível, Hilton explicou que poderia esperá-los até as seis e meia da tarde, por conta de um compromisso marcado. Ainda restavam pouco menos de duas horas para o arremate.

O público acompanhando o espetáculo ia aumentando cada vez mais, agora contando com a presença do amigo pessoal dos zasalhas e tuiteiro, Victor Suga. Quase que ao mesmo tempo em que terminavam de cumprimentar o recém-chegado, um vendedor de artesanato, jovem e claramente alcoolizado, encostou ao lado dos zasóides, lhes mostrando suas peças de folha de bananeira. Ao ver que a atenção dos presentes ainda continuava voltada para nosso lutador, olhou firme para o kibe e esbravejou que anarquia não é vandalismo. Rapidamente, se retirou, voltando sua atenção para outra mesa. Palavras de intensidade, enquanto a tarde baixava sua luz.

23Andreas, que continuava a receber apoio moral não só dos zasalhas como de populares que passavam pelo local, resolveu romper o jejum de mordidas que já durava alguns bons minutos, para o delírio dos presentes. Andreas era ovacionado a cada mordida. Em muitos momentos, coros gritando o nome do guerreiro eram puxados, uns durante mais tempo e outros falecendo prematuramente. Porém, junto com o reconhecimento, vinham as lamúrias. Afirmando que parecia que haviam vinte quilos de kibe dentro de si, nosso guerreiro aplicou mais uma dentada poderosa no salgado, contrariando suas próprias palavras, para o público ir à loucura. Daniel, empolgado com os lampejos de determinação de Andreas, aconselhava-o a jogar água no kibe, um conselho duvidoso, digamos. Além disto, prometeu que, caso cumprisse a missão, iria imprimir um pôster com o rosto de do guerreiro e colá-lo no bar.

Para tomar um ar, Andreas resolveu levantar da cadeira pela primeira vez desde a chegada da bomba. Foi exatamente no momento em que Ivan apareceu, quase que em tom de guerra. De maneira potente, encorajou Andreas dizendo que não se entra numa guerra para perder. Em meio aos espectadores, e já com o proprietário longe de cena, alguma figura, que não podemos identificar, sacou um cigarro de ervas naturais, muito propício para abrir o apetite. Uma receita milenar e muito efetiva. Andreas, que não tem medo da natureza, aceitou alguns tragos para ver se conseguia ajuda para botar mais kibe para dentro. Os poderes fizeram bem para o apetite do desafiador, que aplicou mais alguns golpes potentes no salgado, virando o jogo por um determinado instante. No entanto, logo recuou, tomando contra-ataques estomacais poderosos.

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Capítulo 7: Virando a Caravela em Meio à Tempestade

As tensões estavam à flor da pele, a eminência do término do desafio era extremamente possível, apesar de Andreas já estar parado sem mordiscar o salgado há mais de vinte minutos. Em meio às atenções voltadas para o desafiante, Daniel puxou Jonas de canto e pediu para que ele falasse novamente com o tatuador, estava ficando cada vez mais real o perigo de miar a sessão. Um pouco contrariado, e com o celular de Daniel em mãos, Jonas explicou, por audio (prática que não lhe agrada), a gravidade da situação para Hilton Péricles. O tatuador disse que precisaria saber logo do veredicto para poder se organizar. Uma reunião teria que ser feita imediatamente envolvendo os zasóides, já eram quase seis e meia da tarde e Andreas teria que engolir o kibe imediatamente se quisessem chegar a tempo no estúdio. Decidiram então desmarcar a tatuagem, sobretudo para não causar nenhum tipo de pressão psicológica no guerreiro. O desafio iria até o momento que tivesse que ir. Solícito, Hilton disponibilizou um horário às onze da noite de segunda-feira para que Andreas tatuasse o kibe em seu corpo. Perfeito. A situação era boa também no sentido de não expôr o desafiante a nenhum tipo de dor enquanto entupido de kibe semi-digerido.

A noite finalmente chegou plenamente e, junto com ela, veio o prematuro anúncio de desistência de Andreas. A reação dos presentes de reprovação foi tão efusiva, que ele voltou atrás, como se estivesse apenas jogado um verde. Mesmo já há uns quinze minutos sem sequer encostar a mão no kibe, Andreas continuava a chamar a atenção dos frequentadores do local. O bar já havia triplicado de público, a calçada já estava forrada de mesas, cadeiras, comida e cerveja. De repente, uma garota parou em frente aos nossos correspondentes, observando o abatimento de Andreas e os aparatos de filmagem dos tungstênios. Se apresentando como Gabriela, a senhorita alta, de cabelos longos, óculos de grau e sorriso fácil perguntou o que estava acontecendo. Os zasalhas explicaram toda a situação, que chamou bastante a sua atenção. Era aniversário dela, de trinta anos, estava sentada com os amigos em uma mesa há alguns metros de distância. Encarecidamente, pediu para que Andreas cumprisse o desafio como presente para ela. Nosso herói que estava realmente muito abatido, teve uma sobrevida ao ouvir as palavras da garota, agarrando o kibe como uma arma. Com moderado entusiasmo, deu mais uma mordiscada, tímida porém sincera. Os populares foram à loucura. Enquanto nosso desafiante reclamava do queijo, que não estava mais derretido, parecia que ada mordida era uma ferida na saúde de nosso guerreiro que, de tempo em tempo, tombava levemente de lado, com a barriga saliente por baixo da camiseta preta. Andreas alisava-a como que a um gato de colo.

Enquanto estava tombado em sua cadeira, Andreas foi surpreendido com a aparição de uma mulher loira, baixa, de óculos e que carregava uma garrafa de água mineral consigo. Seu nome? Lena. Assustada, perguntou para Andreas se ele havia comido aquilo tudo sozinho. Ao ficar sabendo de toda a verdade, ficou um tanto impressionada e um tanto horrorizada, afirmando que ele era louco e muito rock’n’roll. Palavras da mesma. De maneira pitoresca, Andreas foi tomado por súbita vontade de tirar uma selfie com a transeunte que, simpaticamente, aceitou o pedido.

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Andreas praticando atos de selfie com fã.

Já com sua fã tendo se retirado, e sem massagem alguma, Andreas foi surpreendido por uma bandeja com outro kibe gigante supresa, trazido por um outro funcionário do bar. O salgado era aquele primeiro kibe gigante feito no começo do dia, que chegou na hora errada. Devidamente requentado, foi trazido para nossos correspondentes beliscarem durante o desenrolar da batalha. Andreas, obviamente, apenas assistia a cena, enquanto uma confraternização recheada de carne, trigo e talheres de plástico acontecia. Uma pausa nas atividades foi decretada. Quando começaram a dividir entre si o bebê, os zasóides tiveram uma noção ainda melhor do tamanho da bronca. A densidade de carne do kibe em questão era alucinante.

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Fred repartindo o tesouro.

Em poucos instantes, mais pessoas paravam para conversar com Andreas. Os mais variados conselhos voltaram à tona. Entre eles, um rapaz um tanto alcoolizado disse-lhe que faltava pouquíssimo para terminar a batalha, apenas um “soco de carne”. Desejou-lhe boa sorte. Em seguida, uma outra garota, com forte sotaque gaúcho, apareceu dizendo-lhe para passar uma água na nuca. A simpatia era geral. Um pouco mais motivado pelas palavras, Andreas resolveu colocar para tocar em seu celular o hino oficial da batalha, Dust in the Wind. Ao ponto que a música ia crescendo, Andreas resolveu dar mais uma dentada no kibe, criando alvoroço entre os espectadores, mais uma vez. Nossa equipe estatística constatou que faltavam cerca de três mordidas para que o desafiante se sagrasse herói.

Uma leve chuva caía, fazendo com que Daniel ficasse de prontidão com um guarda-chuva em mãos para proteger a câmera principal, que estava parada focando em Andreas. Andreas, perguntado sobre qual palavra definia aquele momento, respondeu tiro ao alvo. Estaria nosso desafiante são de suas faculdades mentais? Não há como saber. Sentindo que Andreas estava relutante em desistir do kibe, Leandro resolveu dar-lhe um interessante conselho: fingir para si mesmo que está com fome. Como que sendo energizado pelo conselho do zasalha, Andreas deu mais uma mordida, determinada e agonizante. Os presentes puxaram um coro que mais parecia um grito de gol em final de campeonato. Apesar do incentivo, Andreas parecia ter sofrido um forte golpe, ainda maior do que o desferido no kibe. A situação de nosso desafiante estava delicada. Agora lutava por sua honra numa cadeira amarela de boteco.

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Capítulo 8: A Cartada Final

Andreas sentia dores e mal-estar. Jonas havia até trazido-lhe uma água, enquanto nosso guerreiro dizia-lhe baixo que não ia aguentar. O cenário era preocupante. A vontade de gorfar era intensa, e tudo que Andreas queria era um arroto que lhe re-confortasse. Nada. Quando tudo parecia perdido, uma importante informação foi enviada pelo corpo de Andreas para seu cérebro. Fazer cocô era preciso. Andreas anunciou a chegada do filho dizendo que precisava soltar um detonator. O rapaz estava levemente relutante, pois o banheiro do Sucesso’s não é ideal para defecar. Nossos correspondentes avisaram Ivan da situação, que prontamente concedeu a chave do banheiro feminino para o necessitado. Andreas, seguido de perto por Jonas e Pedro, que iriam captar imagens, do lado de fora da cabina, obviamente, subiu as escadas até o toalete, que ficava no primeiro andar do bar. Munido de celular e gravador em mãos, para a captação adequada de seu momento fascinante, Andreas sentou a nalga na privada e foi aconselhado por Jonas a escutar a música El Arbi, do grande artista polifônico árabe Khaled, afim de favorecer o parto da sucuri. Fascinado, afirmou que o gravador que segurava parecia um taser-bafômetro. Nesse momento, um homem de baixa estatura e cabelos longos entrou pelo corredor que daria para os mictórios masculinos, passando por Jonas e Pedro. Estranhando a situação, perguntou, em tom debochado, se eles estariam filmando um documentário no banheiro. Explicaram a situação para ele, que fez mais algumas piadas e tiradas chulas e foi urinar. Para deixar Andreas na santa paz do capiroto, desceram de volta para a calçada. O desafiante mandaria uma mensagem no celular de Jonas, caso necessitasse de algo.

Vinte minutos se passaram, até que Andreas apareceu descendo as escadas, com aparência mais saudável. Mais uma vez, foi ovacionado pela torcida. Jonas e Leandro conversavam com Ivan, continuando a entrevista com o proprietário. Caoticamente, ficaram sabendo que um protesto estava passando pelo local, e que os protestantes acabaram tendo que desviar dos equipamentos dos tungstênios e do kibe, causando um certo transtorno, contornado por Daniel e Fred, que negociaram com os manifestantes. Como diria a grande escritor, e mentor zásico, Hunter Thompson, “Quando as coisas ficam estranhas, os estranhos viram profissionais”. No jukebox, a canção Hong Kong Garden, da banda Siouxsie and The Banshees, agraciava os ouvidos.

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O retorno, depois de ir ao toalete soltar um detonator, como ele mesmo disse.

As notícias trazidas por Andreas direto da porcelana não eram nada esperadas. Com mal-estar crônico, afirmou que não conseguiu cortar o rabo do macaco, apesar dos minutos que disponibilizou para o ato. Os presentes voltavam a incentivá-lo, cerca de oito pessoas, absoultamente desconhecidas pelos zasóides, estavam paradas em frente a Andreas, que continuava largado em sua cadeira. Constantemente, dizia que não aguentava mais, recebendo cada vez mais apoio motivacional que, àquela altura, parecia não ter mais efeito. Tendo perdido o ritmo, e sendo constantemente golpeado de dentro para fora pelo próprio intestino que rejeitava a quantidade fenomenal de kibe que inserira, exatamente às 19h50 do dia 6 de Maio de 2017, Andreas Félix jogava a toalha, desistindo do desafio do kibe supremo. Para finalizar o enfermo lutador, um dos funcionários do bar trouxe-lhe uma coxinha gigante que tinha acabado de sair da cozinha. Para Andreas, naquele momento, era como ter visto uma assombração. Era tudo uma grande galhofa, o enorme acepipe serviria para alimentar uma mesa com mais oito pessoas, a poucos metros do palco da luta.

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Apesar do anúncio, nosso herói continuou sendo ovacionado, tratado como um guerreiro que deu o seu melhor mas caiu sem vida, nos últimos degrais para a entrada do Palácio da Glória Eterna. Infelizmente, não foi possível vencer o desafio.

Visivelmente abatido, porém aliviado pelo anúncio, Andreas levantou de sua cadeira, usando os últimos resquícios de força que possuía para chutar o restante de kibe para cima, em ato de rebeldia, como um goleiro que repõe a bola em jogo. Os escombros de salgado atingiram o peito de Daniel, com força, descendo lentamente por sua camiseta branca. O zasóide não gostou muito do ato, mas logo relevou a situação, afinal, Andreas estava debilitado e necessitava de apoio.

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Restos de kibe, momentos após atingirem o peito de Daniel.
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Enquanto isso, os felizes proprietários da coxinha gigante do Sucesso’s Bar.

De cabeça erguida, Andreas entrou dentro do Sucessos’s Bar, acompanhado dos presentes, para conversar com Ivan e poder relaxar com um pouco mais de tranquilidade. Apesar da derrota, estava feliz por conta de seu esforço. Ivan disse-lhe que fora o único a tentar comer o salgado gigante sozinho, o que causou-lhe um espanto de felicidade. Apenas os zasóides tinham esse conhecimento. Perguntado sobre o que aprendeu com o desafio, e o que diria para futuros desafiantes, Andreas afirmou que tem que é preciso ter sorte, não tomar cerveja/água durante, comer rápido (de preferência com muita fome) e dormir melhor. Para o desafiante, o que pesou mais foram as horas de sono. Enquanto Andreas proclamava suas palavras , Ivan não parava de repetir seu bordão, “sucesso total”. Estava orgulhoso do desafiante. Por fim, perguntado se a ida para o toalete foi uma boa idéia, afirmou que sim, apesar da revisão no escapamento não ter saída como imaginava. Para Josevan, Andreas foi devagar, porém muito bem, levando em consideração que havia tanta gente olhando. Questionado se havia alguém que poderia vencer o desafio, o proprietário disse que não sabia ao certo, mas achava que sim e que, de repente, havia alguém capaz de comer até mesmo dois kibes gigantes. Ao final das palavras, Andreas e Ivan se abraçaram para uma foto, uma salva de palmas foi necessária. Como o próprio Andreas disse, “enquanto houver luz, haverá esperança”.

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Andreas aconselha os futuros desafiantes a não tomar água, e nem cerveja, comer rápido, de preferência com muita fome, e dormir bem no dia anterior. Para ele, as horas de sono foram o que mais pesaram em sua batalha. Apesar da derrota, se sentia um vencedor.

A missão no Secreto’s Bar estava cumprida. Agora era só uma questão de relaxar um pouco e se preparar para a sessão de tatuagem, que seria dali a dois dias. Os jovens desmontaram os equipamentos e guardaram todos seus aparatos, podendo, enfim, tomar aquela gelada de fim de expediente. Enquanto a chuva aumentava do lado de fora, quase que anunciando o fim do embate, os envolvidos assentavam-se em uma mesa do lado de dentro do bar. Apesar de Andreas não aguentar mais kibe, por uns nove meses, como ele próprio previu, ainda tinha espaço para tomar aquela gelada. Merecido deleite.

Capítulo Final: A Tatuagem

Dois dias se passaram, chegara enfim o momento de tatuar o kibe em Andreas. O local de partida escolhido fora o próprio Sucesso’s Bar. O primeiro a chegar, por volta das sete e meia da noite, foi Daniel, que chegou um pouco antes do combinado pois havia tratado de tomar uma cerveja com uma amiga sua, Jacqueline, que estudara com ele na faculdade. Em seguida, cerca de meia hora depois, Jonas chegou ao bar, que estava um tanto vazio por conta da segunda-feira. A seguir, foi a vez de Fred, que dessa vez veio a bordo de sua louca scooter, sozinho. Pedro, infelizmente, não pôde estar presente no encontro de feras. Andreas e Leandro chegaram praticamente juntos, com nem um minuto de diferença entre eles. Como de se imaginar, a primeira coisa perguntada pelos zasalhas a Andreas era como fora seu fim de semana. Aparentando saúde impecável, Andreas afirmou que passou muito mal, tendo calafrios, caganeira e suores noturnos até o fim do domingo. Naquele momento, já estava bem, seu corpo fazia esforço para se purificar daquele doce veneno. Calando os críticos, Andreas pediu um kibe, dessa vez em tamanho natural, logo após terminar suas declarações.

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Calando so críticos.

Em dois Ford Ka’s e uma moto, os zasóides, incluindo a amiga de Daniel, partiram em direção ao estúdio de Hilton Péricles, localizado nos Campos Elísios, no centrão de São Paulo. Estavam em um verdadeiro comboio. Ao conversar com o tatuador sobre a partida, Daniel foi informado de que provavelmente não iriam caber todos os envolvidos em estúdio, que, segundo Hilton, era bastante apertado. Uma nova logística teria que ser feita.

Em menos de dez minutos chegaram, enfim, ao local prometido. O trânsito estava bastante propício. Pontuais, não se atrasaram nem um minuto. Às 23h, se encontravam estacionando os veículos nos entornos do local. A larga avenida, Duque de Caxias, estava praticamente deserta, se não fosse por um guardador de carro e por um dependente químico que vagava sem vida pela calçada. Quase que em frente ao prédio do estúdio, haviam uma antiga e alta edificação residencial (típica do centro da cidade), um estacionamento, um boteco vazio e um hotel. A região em que se encontravam era conhecida, de maneira pejorativa e errônea, como cracolândia. A logística escolhida foi a seguinte: uma parte dos presentes subiria para conversar com Hilton e saber mais informações, enquanto outra aguardaria embaixo a liberação do tatuador. Foi exatamente o que aconteceu. Com o aval de Hilton, tudo estava devidamente pronto para a sessão.

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Este homem por muito pouco não conseguiu comer um kibe de um quilo e trezentos gramas.

03Ao chegarem no estúdio, se depararam com um local realmente pequeno, mas muito aconchegante e deveras iluminado, com luzes brancas ofuscantes. Muitos bonecos e decoração do gênero róque formavam a atmosfera do local. Cd’s, algumas máscaras que pareciam indígenas e quadros terminavam de formar a atmosfera do estúdio. Na tevê, instalada na parede, um show da banda The Cult, passava em formato dvd. Sentado em sua cadeira preta de rodinhas estava Hilton Péricles, uma figura carismática de cabelos de tamanho mediano, enrolados e nada grisalhos. Além da hospitalidade, o profissional ostentava óculos de grau de armação preta e branca. Simpático, porém austero, o tatuador recebia todos com um claro receio de que fizessem a popular bagunça em seu estúdio. Ao lado do profissional, podia ser visto o desenho de kibe feito por Jonas. O orgulho era imenso. A idéia inicial, caso Andreas não conseguisse finalizar o desafio, era tatuar o que sobrara do kibe, no caso, um “soco de carne”, como bem disse um dos populares que trouxeram palavras de motivação para o desafiante. Porém, um consenso entre os envolvidos fez com que a idéia logo fosse rechaçada, voltando a ser o desenho original, por uma questão estética.

04Hilton Péricles Gusmão, de 47 anos de idade, é nascido em São Paulo, tendo morado na Bahia dos quinze aos vinte e oito anos. Na época do divórcio de seu pai, mudou-se para Vitória da Conquista, onde começou a tatuar, se tornando pioneiro da tatuagem no estado. O palmeirense, que atualmente trabalha mais com micro-pigmentação, dando cursos profissionalizantes e prestando serviços em spa’s e clínicas estéticas, nunca abandonou o universo da tatuagem, sempre rabiscando clientes aqui e acolá. O tatuador acha que houve uma grande banalização do meio, sobretudo a partir dos anos 80. Atualmente, acha que o ramo voltou a ser mais artístico.

Hilton estava empolgado para fazer a tatuagem de kibe em Andreas, achando aquilo tudo muito pitoresco. Ao longo de sua carreira como tatuador, já fez alguns trabalhos um tanto peculiares. Ainda morando na Bahia, há cerca de vinte anos atrás, foi procurado por um senhor de idade, para lá dos seus sessenta anos, para fazer uma tatuagem de folha de maconha em seu rosto. Segundo o tatuador, não faria um trabalho deste hoje em dia, por uma questão ética. Só tatua mão e rosto de pessoas que são envolvidas diretamente com o universo da tatuagem. Outro trabalho curioso que fez, na mesma época, foi para um técnico de manutenção de eletrodomésticos, que quis tatuar um ferro de passar roupas, um liquidificador e uma televisão. Apesar de situações bastante curiosas, nunca havia tatuado comida até então. Para ele, o kibe, estaria facilmente entre os cinco trabalhos mais peculiares que já fez.

Andreas não parecia muito ansioso, tudo ocorria tranquilamente. O primeiro passo de Hilton era marcar o lugar do corpo de nosso desafiante onde a tatuagem seria cravada. A idéia era a coxa. Depois de duas marcações um tanto mal-sucedidas na região, pelo fato de Andreas estar em dúvida sobre o local, foi definido que o kibe ficaria na parte de fora da coxa, a dois palmos acima do joelho. Nosso enviado, que já possui algumas dezenas de tatuagens, gosta de planejar futuros rabiscos e deixar espaços livres para o que a vida lhe reservar. Por conta disso, escolheu uma localização que lhe possibilitaria terminar um antigo desenho que não ficou pronto, uma estátua grega detalhada, na parte da frente da coxa, pegando desde um pouco acima do joelho até mais da metade da região.

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Dando um tapa no matagal.

06Enquanto os zasóides estavam devidamente aconchegados em sofás e cadeiras, ao redor da maca em que Andreas se encontrava, Hilton ia explicando a maneira como ia proceder, começando pelos traços e depois partindo para o sombreamento, de maneira muito didática. Andreas, perguntado sobre o que sentia, disse que apenas um pouco de sono, era evidente em seu rosto. Envolvendo arte corporal e alimento, disse que já havia pensado em tatuar um pedaço de pizza, mas que agora não iria mais fazê-lo por conta do kibe. Segundo o próprio, o máximo de pizza que já consumiu foi vinte pedaços salgados e seis doces. Um número realmente avassalador, mostrando mais uma vez seu apreço pela alimentação excessiva. Assim como Andreas, Hilton também é um grande fã de pizza, seu alimento predileto. Para ele, o sabor portuguesa é o que lhe satisfaz plenamente. Por outro lado, odeia sarapatel, o alimento que mais lhe desagrada. Infelizmente, kibe também não agrada o paladar do profissional. Em meio ao assunto, Andreas comentou que no Tatuapé existe um rodízio de pizza de apenas quatorze reais, chamando logo a atenção de todos para o assunto. Arisco, Daniel afirmou, em tom de ironia, que os zasalhas Jonas e Leandro nunca vão para aqueles lados da Zona Leste. Malcriado. Na tevê, The Cult continuava a esmirilhar a chapeleta, enquanto o barulho da máquina de tatuar de Hilton ia atravessando a música agudamente. O semblante de Andreas era de tranquilidade, um veterano no assunto.

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Momentos.

A tatuagem demorou cerca de vinte e cinco minutos para ser feita, sem maiores complicações para nenhuma das partes envolvidas. Ao término do trabalho, o semblante de Andreas era de satisfação e de curiosidade. Ao contrário do desenho feito por Jonas, a tatuagem foi escolhida para ser feita apenas com traços pretos, de contorno relativamente fino e sombreamento leve nas áreas dos limões, principalmente nos sulcos internos da fruta e no prato, de maneira a trazer volume e profundidade para a obra. O kibe em si, recebeu uma textura pontilhada para simular seus grãos, com algumas leves rachuras para demonstrar seu relevo acidentado. Hilton parecia satisfeito com o serviço prestado. Ambos, o tatuador e o tatuado, sabiam da importância e relevância de eternizar um salgado do cacife de um kibe na pele, enaltecendo de maneira honorária toda uma cultura milenar e de impacto mundial na gastronomia alimentar. Para poucos.

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O kibe no prato, eternizado na pele de Andreas. 

De serviço devidamente cumprido, respeitando com veracidade o desenho de referências, faltaria apenas Hilton trocar uma idéia um pouco mais intimista em frente às câmeras, para poder selar sua participação estonteante nesta aventura. Por conta do tamanho do estúdio, foi pedido encarecidamente que somente quem fosse necessário ficasse no local durante o momento. Foi decidido, portanto, que Jonas, Leandro e Fred permanecessem no local para coletar mais algumas palavras do tatuador, enquanto o resto da trupe esperaria pelo fim da empreitada em um boteco próximo, há menos de uma quadra de distância. Foi a última interação entre Andreas e o tatuador, um laço criado com força, sangue, carne e cumplicidade.

Já devidamente a sós, e como não poderia deixar de ser, os zasóides queriam saber como começara, e daonde viera, a relação entre Hilton e o Sucesso’s Bar. O tatuador frequenta o local desde sua abertura, criando um laço forte com Ivan e seus comandados. Em certa feita, o tatuador foi comer um acarajé em um barzinho próximo do Sucesso’s Bar. Como o estabelecimento em que se encontrava não vendia cerveja, passou a ir até a propriedade de Josevan para pegar aquela gelada. Temendo ser mal-visto pelo anfitrião, já deixou tudo pago adiantado, afim de mostrar que não iria sumir. A atitude honesta aproximou os dois, que logo passaram a desenvolver longos papos sobre os mais diversos assuntos. Segundo o próprio, costuma frequentar o local pelo menos uma vez por semana, quando não duas, geralmente de quarta-feira e domingo. Acompanhado de amigos do ramo das artes e da música, costuma ir ao bar assistir a jogos do Palmeiras, seu time do coração. Essa relação tão estreita entre o tatuador e o estabelecimento fez com que ele tivesse a idéia de criar a tão falada promoção. Por conta de seu cartão de visitas estar com seu antigo número de celular, Nextel, que iria expirar em seis meses, Hilton resolveu criar a promoção como forma de colocar seus cartões em cima da bancada do bar, tentando esgotá-los e angariar clientes o mais rápido possível com aquele número fadado à extinção. Segundo ele, em dezesseis dias vieram seis pessoas tatuar-se com ele, por conta da promoção. O movimento foi intenso durante esse período e depois parou durante algumas semanas, até que Andreas apareceu. O penúltimo tatuado por ele fez o desenho de uma carpa. Hilton afirmou que tem como hobby ouvir música, sobretudo a banda Rolling Stones e, mais recentemente, Nação Zumbi. Odeia róque pop brasileiro, como Jota Quest, Nx Zero e Engenheiros do Havaí. Em se tratando de belas senhoritas, o tatuador acha a atriz Jennifer Aniston muito bonita, dizendo de maneira polêmica que o ator Brad Pitt fez uma troca infeliz ao deixar jennifer por Angelina Jolie. Para ele, a pior coisa do mundo é arrogância e pessoas que falam alto, pior ainda se utilizarem palavreado tosco, como ele mesmo definiu. Em se tratando de sonhos, não se lembra qual foi o último que teve, mas acredita que tenha sido algo erótico. Por fim, aconselhou os correspondentes de Zaso Corp. a amarem a si mesmos.

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Hilton Péricles, 47, é paulistano, tendo morado em Vitória da Conquista, Bahia, por durante treze anos. Um dos pioneiros da tatuagem no interior baiano, afirmou já ter tatuado uma folha de maconha no rosto de um idoso de mais de sententa anos de idade e uma sequência de um ferro de passar roupa, uma televisão e um liquidificador em um técnico de eletrodomésticos. Não gosta de kibe e  acha que Brad Pitt fez uma troca infeliz ao deixar Jennifer Aniston por Angelina Jolie.

Após se despedirem de Hilton e seu camarada, os envolvidos desceram novamente para a rua afim de encontrar o resto da trupe, que embriagava-se em um humilde boteco em frente ao prédio do estúdio. Fred, necessitando trabalhar na madrugada, e com receio de ficar perambulando pela região com seus aparatos cinematográficos, se despediu dos zasalhas, sumindo no infinito em cima de sua scooter. Os restantes da aventura tomaram mais algumas cervejas, conversando acerca dos ocorridos antes de irem embora para suas devidas casas. A madrugada já entrava com força, o relógio acusava a uma e meia da mamãe. Missão mais do que cumprida.

Apesar da desistência prematura de Andreas durante o desafio do kibe, ficou claro que sua luta pela vida e intensa voracidade alimentícia ainda lhe renderiam grandes triunfos no ramo dos desafios gastronômicos. Por questões de estratégia e preparo, nosso herói sucumbiu ao cenário impactante que o salgado lhe trouxe, mas nada que não lhe trouxesse valiosas lições a serem levadas para o resto da vida. Lições estas que jamais poderiam ser esquecidas por Andreas, afinal, toda vez que estiver nu diante de si próprio e avistar sua homérica tatuagem de kibe na coxa, lembrará de sua saga, e terá a certeza de que não se saiu um fracassado. Muito pelo contrário. Aos olhos de todos os presentes que tanto acreditaram nele, foi motivo de orgulho e inspiração. Fica no ar se Andreas voltará a aventurar-se neste intenso desafio. Só o tempo dirá. O palpite da entidade Zaso Corp. é que sim.

Atenção: Se você, internauta, quiser aventurar-se no embate com o kibe supremo de um quilo e trezentos gramas do Sucesso’s Bar, entre em contato conosco através de nossas redes sociais  ou e-mail, zasocoporation@gmail.com. Show.

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