Vestes de Rock, Quem as Habita e Seu Nobre Recanto

Fotos: LEANDRO FURINI | Texto: JOE BORGES | Produção: DANIEL KUBALACK

Existe uma cacetada de gente no mundo. E o que essas pessoas têm em comum, a não ser sonhos e desejos estraçalhados pela grande máquina? Roupas. Ao longo de milhares de anos, seres humanos vêm cobrindo seus corpos com trajes, num comportamento condicionado por séculos de imposições moralistas e vento gelado. Estudos absolutamente duvidosos afirmam que em torno de noventa e sete porcento dos seres humanos que habitam a Terra costumam passar seus dias trajando vestes. Em se tratando de outros animais, apenas zero vírgula dois porcento costumam usar roupas, sendo que, quando usam, geralmente são filmados e armazenados na interweb, a fim de divertir o internauta. Dentro do abrangente universo das roupas, estampas acrescentam e evidenciam traços de personalidade e gosto pessoal para aqueles que as portam, sendo que uma das mais comuns temáticas encontradas é o róque, principalmente em vestimentas torácicas conhecidas como camisetas. A cultura de usar trajes de conjuntos musicais já vem completando muitas décadas, se tornando prática cada vez mais comum em todas as idades e meios. Para os apreciadores desta atividade, sobretudo em se tratando da cidade de São Paulo e região metropolitana, existe um nobre recanto para a aquisição destas vestimentas: a Galeria do Rock.

O local, inaugurado no ano de 1963, é um tradicional centro comercial, com andares recheados de pequenos estabelecimentos. Durante décadas, a galeria foi tomada por lojas de discos e material musical, recentemente tendo mudado um pouco sua cara por conta da chegada de estúdios de tatuagem e boutiques de produtos relacionados a games, skate e universo geek – um dos termos mais bunda branca já criados. Conhecida nos torpes anos da ditadura militar como um recanto da juventude contrária ao regime, além de compras, o lugar oferece aconchego para a reunião de diversas vertentes do gênero roquista e até mesmo de outros estilos musicais, como o hip-hop, que possui um andar exclusivo para si, localizado no subsolo da galeria.

Os correspondentes d’Zaso Corp são antigos frequentadores da Galeria do Rock e apreciadores do gênero musical, fato este que levou-os a dar aquela passadela pelo local no intuito de conversar e fazer um rocambolesco estudo comportamental com os transeuntes consumidores de roupas de bandas e as suas motivações/delírios que permeiam o assunto. Venha conosco nessa aventura mandraque de fim de semana.

01O dia escolhido para a visita foi o sábado. Os correspondentes Leandro, Jonas e Daniel, acompanhados de Guilherme Fidalgo, pessoa física e amigo pessoal dos jovens, se encontraram numa lanchonete dentro de uma galeria vizinha, conhecida popularmente como Galeria do Reggae. Enquanto Jonas ia pensando e redigindo perguntas a serem feitas para os consumidores de trajes roqueiros, Guilherme mandava bronca num massudo prato feito, composto de arroz, feijão, bife, ovo, salada e dignidade. Terminada a missão, era uma questão de andar poucas dezenas de metros em direção à galeria, que fervia, mas não tanto quanto de costume. Com calor moderado e relativo baixo movimento, por conta daquela data coincidir com o primeiro dia do estrumbado festival Lollapalooza, o centro comercial operava com capacidade reduzida. Os relógios acusavam as quinze horas, enquanto os zasalhas perambulavam lentamente pelas dependências do lugar. A ideia era abordar alguma pessoa de carisma acima da média e que tivesse comprado roupas com estampas do gênero róque. Eis que surge, em direção aos nossos correspondentes, andando de maneira semi-determinada, um rapaz alto, de traços caucasianos loiros, um tanto arisco e portando bandana e camiseta com estampas da banda Slipknot. Suas calças? Eram baggy camufladas e nas cores preto e branco. Seu nome? Sidney Renan.

Sidney Renan, de 19 anos, é apreciador do gênero róque pauleira e morador do bairro de Guaianazes, no extremo leste de São Paulo, onde tira seu sustento trabalhando no ramo das telas de celular. Segundo o próprio, pegou trem e metrô para se locomover até a galeria, local que frequentou poucas vezes em sua breve vida, sendo que a primeira vez foi em 15 de Outubro de 2016. Sim, Sidney sabia informar a data com precisão. Determinado, o rapaz estava frente aos zasalhas após ter cumprido a missão de achar uma camiseta da banda Arctic Monkeys para sua namorada, que fazia aniversário. Perguntado sobre a compra mais ousada que já fez no local, afirmou que já gastou seu salário inteiro em roupas, de uma só vez, gerando a ira de seus pais, que ainda lhe provém teto, comida e roupa lavada. Possuindo cerca de vinte camisetas de banda em seu armário, a maioria do Slipknot, Renan disse ter o sonho de adquirir uma camiseta da banda de punk róque Sex Pistols, desejo este que parece estar próximo de se realizar. Com sinceridade pura e cristalina, Sidney disse nunca ter se dado mal por conta de camisetas do gênero róque, muito pelo contrário. O jovem contou que conheceu sua namorada por conta de seu moletom do Slipknot, já que ela veio puxar assunto com ele usando este gancho. Muito bem, Sidney Renan, que não dispensa uma bebidinha alcóolica, tendo inclusive respondido “Vixe” quando perguntado por nossa equipe se gosta de uma cagibrina. Segundo ele, seu beberico favorito é a vodka, seja pura ou misturada com qualquer coisa. Intenso. Excêntrico, tem como principal hobby o skate, enquanto a mulher que acha mais bonita é Marina Ruy Barbosa. Já mais íntimo dos zasalhas, disse que acredita em vida fora da Terra, apesar de não acreditar em E.T’s, palavras que causaram uma certa confusão mental nos envolvidos. Seu filme favorito é Deadpool e se pudesse parabenizar alguém, não parabenizaria ninguém. Para ele, ninguém está de parabéns.

A entrevista com Sidney ocorria com tremenda fluidez, mas algo parecia estar faltando. Era como se as perguntas não fizessem jús ao que representa o gênero róque. Foi então que um estalo ocorreu entre os nossos correspondentes. Em se tratando do assunto, uma figura icônica obrigatoriamente teria que ser lembrada, mencionada e, por que não, venerada. Obviamente que este ícone era Regis Tadeu. Não sabe quem é? Envergonhe-se de sua leviandade. Inundados de curiosidade, nossos entrevistantes não deixaram Renan escapar de suas mãos e perguntaram-no se ele conhecia o crítico musical. Confuso, o fã de Slipknot afirmou que não fazia ideia de quem era Regis. Como importante complemento, Renan foi perguntado acerca da banda Manowar, conhecida pelo metal épico, requintes de bolação, corpos besuntados em azeite e por ser detestada por Regis Tadeu. O entrevistado afirmou que já ouviu falar no conjunto musical, mas não conhece a fundo. Em ato de finalização, Sidney indicou a música Disasterpiece da banda Slipknot para Zaso Corp., que não poderia deixar de compartilhar esta peça com o atento internauta.

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Sidney Renan, 19, é morador do bairro de Guaianazes, gosta de beber vodka pura, trabalha com confecção de telas de celular, acredita em extraterrestres, mas não em E.Ts, e se pudesse parabenizar alguém, não parabenizaria ninguém. 
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Sidney foi até a galeria para comprar uma camiseta da banda Arctic Monkeys para a namorada.

Felizes com o início de empreitada, os zasóides continuaram a vagar lentamente pelos domínios da Galeria d’Rock, caminhando pelo segundo andar. Os jovens mais pareciam agentes infiltrados, seguindo sorrateiramente as pessoas como se estivessem a investigá-las. Se não fossem tão escangalhados, poderiam até mesmo ser confundidos com policiais. A perseguição sempre acabava com a desistência dos zasalhas antes mesmo da abordagem, estavam a espera de uma pessoa mais excêntrica aparecer. Cansados das constantes desistências, avistaram um casal de jovens que andava sem pressa. O casal era composto por duas pessoas de sexo oposto, sendo que a figura do sexo masculina era um rapaz de óculos, alto, ossos largos, cabelo comprido preso por elástico, pele escura, barba de quem acordou há pouco tempo e portando uma camiseta de banda do gênero metal. O suor escorria pelo seu rosto, ele claramente estava sofrendo com o calor que, apesar de moderado, causava-lhe suadeira. Ao ser abordado pelos zasógenes, aceitou trocar uma palavrinha, enquanto sua namorada fazia cara de quem estava com vergonha da situação. Qual o nome de batismo desta pessoa? Jandis.

Jandis afirmou ter vinte e um anos de idade, muito bem vividos, e morar na cidade de Guarulhos, apesar de nascido na capital. Na missão de comprar uma camiseta da banda Megadeth, que inclusive vestia naquele momento, disse que já teve uma igual mas acabou por perdê-la nas mais loucas circunstâncias da vida. Curiosamente, a estampa de sua nova aquisição estava extremamente pixelada, parecia que alguém pegara um ícone de área de trabalho do computador e aumentara consideravelmente. Quando perguntado sobre uma banda que gosta mas não usaria a camiseta, foi antecipado pela namorada, que respondeu Nickelback. Um tanto surpreso e sem graça, falou olhando para baixo que conhecia só algumas músicas deles. Recuperado, nos contou que gosta de Foo Fighters, mas também nunca usaria uma camiseta da banda. Compreensível. Na sequência, afirmou que também não sairia na rua com uma camiseta da banda Iron Maiden, por medo de ser tachado de poser, já que não conhece muito bem as músicas. Cauteloso. Em relação à Megadeth, afirmou também deixar a desejar no conhecimento musical, mas pelo menos se garante melhor no assunto. Categórico. Apesar do grande apreço pela banda, tem como grupo musical favorito Dream Theater, onde toca seu grande ídolo, Mike Portnoy, baterista. Jandis também segue os mesmos passos do músico. O jovem estudante de administração, e amante de meter aquele golaço no Corote, confidenciou que morre de vontade de comprar um coturno. Porém, um problema impede-o de realizar esse sonho: a falta de dinheiro. Os correspondentes d’Zaso Corp. conhecem bem este male. Sem massagem, os zasalhas lançaram logo a bomba para Jandis, pergutando-lhe qual a compra mais ousada que já fizera no local. Em tom de raciocínio intenso, parou por um instante para pensar no assunto. Foi então que, mais uma vez, sua namorada interrompeu o silêncio e, como se estivesse esperando a vida inteira por aquele momento, afirmou que a compra mais ousada que nosso entrevistado já fez foi um batom preto. Muito menos sem graça do que quando o assunto era Nickelback, Jandis apenas concordou com a cabeça. Achando a resposta interessante, os zasalhas perguntaram para o jovem se o batom era para ele mesmo usar. Mudando suas feições para uma expressão sapeca, deu uma olhadela rápida para a namorada e voltou-se para nossos correspondentes, dizendo apenas “às vezes né, quem sabe…”. Mudando um pouco de assunto, Jandis disse que seu último sonho foi com um Tiranossauro Rex perseguindo-o, informação valiosíssima para os arquivos de Zaso Corporation. O rapaz também disse jamais ter sido atacado por animais silvestres em sua vida, até então. Em se tratando de estresse, afirmou que a coisa que mais lhe irrita é ficar suando no ônibus lotado. Justíssimo. Tendo dado aqueles cinco segundos para recuperar a oxigenação cerebral adequada, se despediu respondendo duas perguntas imprescindíveis, acerca de Regis Tadeu e Manowar. Jandis é mais um dos seres humanos que nunca ouviu falar em Regis Tadeu, apesar de ter vaga memória acerca da banda Manowar. E para coroar essa excelente participação, recomendou a canção Distopyan Overture, de autoria de sua banda favorita, Dream Theater. O metal melódico, épico e matemático corre nas veias de Jandis.

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Jandis, morador de Guarulhos, tem 21 anos e nunca foi atacado por animais silvestres. Veio até a Galeria do Rock para comprar uma camiseta do Megadeth, que vestia naquele momento, e a compra mais ousada que já fez no local foi um batom preto, para ele mesmo usar. A última coisa que sonhou? Estava sendo perseguido por um Tiranossauro Rex. E a coisa que mais lhe estressa? Ficar suando dentro do ônibus lotado.

Se despedindo do doce bárbaro Jandis, os zasalhas voltaram à sua missão investigativa. Durante alguns minutos, não viam praticamente ninguém com sacolas de compras, parecia que os consumeiros de plantão estavam se escondendo. Próximo de uma tradicional loja de discos, um homem sério e comedido, de cabelo curto, pele morena, óculos de armação grossa e região bucal protuberante andava sem pressa, observando atentamente as vitrines. Algumas sacolas cinzas de compras chamaram a atenção dos zasórios, que não tardaram em ir ao encontro dele para uma palavra de esperança. Apesar de um tanto arisco no começo, querendo saber do que se tratava e qual a finalidade daqueles jovens que lhe abordavam, acabou cedendo aos encantos dos rapazes e concedeu suas palavras.

Ricardo, de 40 anos de idade, é mineiro, da cidade de Além Paraíba, mas mora em Volta Redonda, região do sul fluminense. Médico, veio para São Paulo participar de um congresso. Rockista que é, não poderia deixar de dar aquela passada pela Galeria do Rock, essa era a segunda que vez que Ricardo visitava o local. A primeira vez foi há cerca de dez anos atrás. Para ele, a maior mudança foi relacionada ao fechamento de algumas lojas de cd’s e vinis e à ascenção dos estúdios de tatuagem. Outro detalhe que lhe chamou a atenção é que ele não lembrava que existia o andar subterrâneo voltado para a cultura hip-hop no local. O entusiasta de um feijão, e grande crítico de frutos do mar, é também apaixonado por Black Sabbath, sua banda predileta. Se pudesse tirar o chapéu para alguém, seria para o guitarrista da banda, Tommy Iommi. Entusiasta de esportes, Ricardo é flamenguista, também se interessando muito por vôlei e tênis, que inclusive pratica nas horas vagas. Refinado. Suas habilidades esportivas não param por ai, o profissional da saúde sabe andar muito bem de bicicleta, dizendo ter habilidade nove, de dez, para a prática. O médico estava passeando pela Galeria do Rock a fim de comprar cd’s e camisetas, missão essa que estava longe de acabar. Até o momento, já havia comprado três vestes torácicas de banda: King Diamond (que inclusive vestia naquele momento), Motörhead e Pink Floyd, relativo ao álbum The Wall. Ricardo gosta muito do local pois sente falta de um centro comercial assim em sua cidade. Segundo ele, existem umas três ou quatro lojas que vendem discos e camisetas em Volta Redonda, muito pequenas e precárias. Recentemente, se rendeu a uma prática que vem se tornando cada mais tendência entre habitantes do planeta: colecionar vinis. Apesar de não possuir vitrola, Ricardo tinha esperança de garimpar alguns bons discos pelas lojas da galeria. Entusiasta de uma boa cerveja, incrédulo na existência de E.T’s e tendo o humorista Fabio Porchat como famoso que emagreceu favorito, o entrevistado foi se despedindo dos zasalhas, mas não sem antes ser questionado acerca de Regis Tadeu e a banda Manowar. O médico foi o primeiro entrevistado a dizer que conhecia Regis, dizendo que gosta dele e de seus textos. Os zasalhas tiveram a impressão de que Ricardo achou que o crítico musical era amigo deles e, portanto, foi bastante diplomático ao se referir sobre ele. Já com relação à banda Manowar, afirmou que só ouviu falar mesmo. Para não perder o costume, Ricardo indicou uma canção para o internauta, The Arrival, de King Diamond.

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 Ricardo é mineiro e reside em Volta Redonda, no Rio de Janeiro. No alto de seus 40 anos de idade, o médico odeia frutos do mar, adora Black Sabbath, joga tênis nas horas vagas, tem como ex-gordo predileto Fabio Porchat, não acredita em extraterrestres, acredita em Regis Tadeu e está em sua segunda passagem pela Galeria do Rock.
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Ricardo comprou três camisetas de bandas: King Diamond (que estava usando), Motörhead e Pink Floyd.

O acompanhante de luxo Guilherme Fidalgo, que aventurava-se na companhia de Zaso Corp., não estava na Galeria d’Róque de brincanagem, tinha a missão de fazer compras, mais precisamente duas camisetas de banda, uma para seu pai e outra para seu irmão. Assim que Ricardo voltou à sua empreitada de consumo, Guilherme resolveu também dar aquela buscada em seus produtos. Foi então que uma ideia surgiu entre os zasalhas: já que seu amigo preenchia os pré-requisitos dos entrevistados para a matéria, por que não trocar uma palavrinha com ele sobre o assunto? Seriam mortos em uma emboscada por conta disso? Creio que não. Para evitar que Guilherme se atrasasse em sua missão, os correspondentes de Zaso Corp. acompanharam-no por algumas lojas. Não demorou para que ele achasse duas camisetas da banda Iron Maiden, exatamente as que seus entes queridos tanto queriam. De compras feitas, o diálogo poderia ser consumado com tranquilidade, respeito, empatia e calor humano.

Guilherme nasceu há vinte e nove anos atrás, na cidade de São Paulo. O jovem entusiasta de róque e vertentes do metal já vem frequentando o espaço da Galeria do Rock há cerca de quinze anos, sendo que há um não pisava no local. Para ele, a maior mudança que o lugar sofreu foi em relação às lojas de artigos “emos”, que dominavam a galeria na época que ele começou a frequentar o local, deixando de existir gradualmente graças a um sepultamento do gênero por parte das novas gerações d’jovens. Uma tendência que não deixou lá muitas saudades, convenhamos. Criterioso, Guilherme disse que o que mais leva em conta para a compra de suas camisetas são a estampa e o material, ratificando que achou as suas duas novas aquisições de excelente qualidade. Sorridente, afirmou que seu grande sonho de consumo no local é um boneco de E.T gigante que da o seu ar da graça numa vitrine de uma loja de produtos canábicos, ou “loja de bong”, como o próprio Guilherme afirmou. Além do desejo de consumo pelo extraterrestre, Guilherme disse que acredita 9/10 em E.T’s. Segundo ele, o que falta para acreditar em nível dez é conhecer pessoalmente o E.T Bilu. É um influenciador nato. O jovem, ainda na onda de desejos de consumo, afirmou que adoraria ter uma camiseta da banda Poison The Well, que muito lhe apetece. Porém, seu desejo é bem difícil de encontrar. O apreciador de feijoada, caipirinha e torta de limão parece não apreciar muito o uso de coturnos. Guilherme afirmou com efusividade que jamais compraria um coturno, em hipótese alguma, só se fosse no cemitério. Uma declaração bela e confusa, assim como todas as coisas belas e confusas. Esperançoso, não acredita que o róque morreu, mas sim que está se re-inventando lentamente. Assim como odeia coturno e pistache, Guilherme também odeia Capital Inicial, opinião essa que na verdade é a resposta certa para esta pergunta. Seu ídolo? Silvio Santos. Uma palavra que o define? Hombridade. Uma mulher bonita? Mari Palma. Gostaria de ter um carro conversível? Sim. Quantas vezes por semana consome pornografia? Por volta de três. Se Guilherme pudesse bater com força em alguém, seria em Tico Santa Cruz, mais uma louvável resposta do menino de ouro. Perguntado sobre o que considera beleza, Gui afirmou que é estar na praia com os amigos. Quebrando o protocolo d’Zaso Corp, mas de maneira totalmente excelente, Leandro comentou que, para ele, beleza é poder cagar em casa. Já para Jonas, beleza é limpar a bunda depois de soltar aquele barróquio e o papel vir sem nenhum resquício fecal. Daniel não se pronunciou sobre o assunto. Para finalizar a entrevista Gui afirmou que conhece Regis Tadeu, mas nunca o viu ao vivo. Já quando o assunto é Manowar, e para surpresa dos zasalhas, Guilherme afirmou que já fora muito fã deles em tempos de juventude. “Seventh Son of a Seventh Son”, da banda Iron Maiden é a música que nosso acompanhante dedicou para todo o país. Voa, garoto.

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O  influenciador Guilherme Fidalgo tem vinte e nove anos de idade, já foi muito fã da banda Manowar, consome pornografia cerca de três vezes por semana e odeia tanto pistache quanto Capital Inicial. Fã do comunicador Silvio Santos, afirmou que tem o sonho de adquirir um E.T inflável vendido na Galeria do Rock em uma “loja de bong”. Se pudesse agredir alguém fisicamente, iria dar um cacete em Tico Santa Cruz. 
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Guilherme adquiriu duas camisetas da banda Iron Maiden.

As 18h iam se aproximando e algumas lojas da Galeria d’Rock teimavam em fechar suas portas, o que obrigaria nossos heróis a se retirarem do local. Um óbvio consenso veio à tona, seria necessário mais um dia para coletar mais alguns relatos de consumidores de róque. E foi exatamente o que aconteceu.

Uma semana depois, dessa vez sem a presença de seu convidado de sete dias atrás, os correspondentes de Zaso Corp. se encontraram em frente à galeria, para dar prosseguimento à missão. O movimento era mais intenso que na semana anterior, a galeria voltara ao seu natural de sábado. Com praticamente a mesma abordagem, os zasalhas foram sorrateiramente observando os consumidores de róque, percorrendo sem pressa os andares do local. A título de variedade, os zasalhas pensaram que seria legal conseguir achar uma jovem senhorita, de preferência pela casa dos vinte anos de idade. Foi o que aconteceu. Não tardaram para avistar um casal de jovens que passeava sem rumo pelas dependências da galeria. A garota, de cabelos escuros, por volta de um e cinquenta de altura, uma coleção de piercings na face e uma larga camiseta do artista e estranhão Marylin Manson, que daria para vestir ela e o namorado juntos, reparou na chegada de Zaso Corp., se intimidando levemente. Quando soube da intenção dos zasalhas, aceitou falar um pouco sobre o que habitava a sacola que ela portava: compras de róque.

Julia, de 20 anos de idade, é paulistana e moradora do bairro de Higienópolis. De carro, veio visitar o local na companhia do namorado, consumando um programa romântico de fim de semana. A primeira vez que esteve no local foi há mais de dez anos atrás, quando seu pai a trouxe na galeria para comprar uma pulseira spike, tão apreciada pelo cantor e eterno adolescente Supla, ao ponto que ele praticamente se tornou uma ao longo dos anos. Fã incondicional de Marylin Manson desde os tenros anos da infância, Julia afirmou ter se interessado por róque desde cedo. A garota estava naquele momento portando duas compras: uma camiseta do Led Zeppelin e outra do Metallica. Seu sonho maior de consumo no local é comprar uma estátua do Ed, icônico mascote da banda Iron Maiden. Ainda em se tratando de camisetas, disse que a última que comprou não sendo de banda do gênero rock foi uma do Buzz Lightyear. Saudosa. A entusiasta de uma boa lasanha, e de pagar compras no débito, confidenciou que sua compra mais polêmica e ousada na galeria foi de um coturno de oitocentos reais, quantia que deve ter feito seus pais darem cambalhota no carpete. Sua cor favorita é o preto, seu filme predileto é Laranja Mecânica e nunca saiu na porrada com ninguém. Pacífica. Segundo Julia, o que mais lhe irrita é gente homofóbica e preconceituosa. Justa. Em certa vez, no aeroporto, foi questionada pelo inspetor da alfândega acerca de uma camiseta da banda Ramones que vestia. O funcionário perguntou se ela sabia dizer três músicas da banda, ou, caso contrário, não deixaria-a passar pela revista. Cercada de populares e extremamente envergonhada, teve tela azul e não conseguiu dar uma resposta para o homem que, com maroto sorriso, deixou-a passar. Um tanto traumatizada, mas sem perder o bom-humor, disse que nunca mais usou a camiseta. Perguntada sobre Regis Tadeu, disse que conhecia-o, afirmando que sabia dele por ele ser integrante da banda Titãs. Alertada pelos correspondentes de Zaso Corp. que ele não era um dos músicos da banda, percebeu que estava confundindo-o. Já em relação à banda Manowar, disse nunca ter ouvido falar.

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Julia, 19, é fã incondicional de Marylin Manson, nunca saiu na porrada com ninguém, é entusiasta de uma suculenta lasanha e frequentou a galeria pela primeira vez há mais de dez anos atrás. A coisa que mais irrita-a é homofobia e confundiu Regis Tadeu com um integrante da banda Titãs.
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Uma das aquisições de Julia, uma camiseta da banda Led Zeppelin.

De volta à escolha da próxima vítima, os jovens resolveram subir um andar para verificar o movimento, que parecia maior por aquelas bandas. Por conta do horário mais cedo que da primeira vez, as 15h sequer haviam se aproximado ainda, o ritmo que regia os seus passos era deveras lento. Utilizando o instrumento cerebral que lhes foi permitido pela evolução da espécie, tiveram a ideia de ficar guardando posição perto de uma intersecção de escadas, ali o fluxo de transeuntes parecia promissor. Não tardou para que um homem de baixa estatura, para lá de seus cinquenta anos de idade, cabelos grisalhos, pele morena e camiseta do baixista drogadaço Sid Vicious surgisse no campo de visão dos zasalhas. Ao olharem para suas sacolas, se entreolharam e souberam imediatamente que aquela espécime deveria ser estudada.

Ao ser abordado, Edson ficou um tanto surpreso. O paulistano morador do bairro da Cachoeirinha, na zona norte da cidade, estava no local para comprar algumas camisetas. A missão fora parcialmente cumprida, já que conseguira achar uma peça da banda Stray Cats, para si próprio, mas falhara no objetivo de encontrar outra da banda punk U.K Subs, eternizada pelo vocalista e tranqueira Charlie Harper. Na realidade, encontrara a camiseta, mas no tamanho PP, inviável para sua barriga avantajada, embebida em pura experiência. Acerca de sua idade, o simpático cidadão afirmou ter vinte e três anos, com carinha de cinquenta e dois, mostrando o humor que apenas a vivência de mais de cinco décadas é capaz de proporcionar. Aos quatorze, quando ainda trabalhava como office boy pelo centro da cidade, teve a sua primeira experiência na Galeria do Rock, onde costumava passar muito tempo. Segundo ele, o que mais mudou nessas quatro décadas foi em relação à modernização do lugar, com reformas pontuais de estrutura. Outra coisa que Edson nos contou, com notas de tristeza no coração, é que muitas lojas de amigos fecharam, sobretudo de discos. A maior perda, no entanto, foi a de um vendedor de dvd’s, muito camarada seu, que vendia suas mercadorias no primeiro andar da galeria. Depois do sumiço do amigo, nunca mais se encontraram. Labuteiro do ramo da tecnologia, entusiasta de arroz e feijão e baixista, tem como banda favorita internacional os Dead Kennedys, enquanto nacional é Lixomania, que inclusive são amigos seus. Bastante inserido no meio musical, cuida de um site chamado deadpunks.com.br, alimentando-o com conteúdo e curiosidades acerca da cena, assim como material de sua extinta banda, que leva o mesmo nome do site. Os Dead Punks surgiram na zona norte de São Paulo com a reunião de amigos de infância, há não mais que quatro anos atrás. Na época, ensaiavam no estúdio do baterista da banda, que foi construído em sua própria casa. Infelizmente, o mesmo faleceu há dois anos atrás, o que fez com que a banda acabasse em respeito à sua pessoa. Foi a partir desse momento que Edson resolveu criar o site para guardar material do Dead Punks e disseminar a cultura. Seu sonho, segundo ele, é ver a camiseta de sua banda sendo vendida na galeria. Apesar do gosto pelo gênero, o entrevistado afirmou também ter interesse pelo soul. Em sua adolescência, costumava frequentar algumas garagens em seu bairro, onde o groove comia solto, mesmo já conhecendo o punk rock. O intuito, segundo ele, era o beijo em boca. Edson não conhece Regis Tadeu e nem Manowar mas, apesar desta triste notícia, indicou a música O Punk Rock Não Morreu, de sua banda predileta, a Lixomania.

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Edson, 23, mas com cara de 52, como ele mesmo disse em tom piadista, trabalha no ramo da tecnologia e frequenta a galeria a mais de quatro décadas. Além do gosto pelo punk rock, afirmou não conhecer nem Regis Tadeu e nem banda Manowar. 
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Camiseta da banda Stray Cats, que Edson comprou.

Engana-se você que acha que a conversa com Edson chegara ao final. A entrevista com o roquista ia se mostrando a mais longa até então. O abordado estava muito interessado no conteúdo que os zasórios poderiam gerar a partir daquilo. Além da semelhança de Edson com o pai de Jonas, outra questão chamou muito a atenção dos zasalhas: a sua experiência com extraterrestres.

Há mais de duas décadas atrás, Edson e seu irmão tinham um escritório de webdesign, próximo do viaduto Dona Paulina, no centro de São Paulo. Em um certo dia, por volta das 21h, seu irmão, publicitário e designer, havia ido embora, deixando Edson sozinho no escritório. O homem trabalhava tranquilamente, terminando uma missão importante. Ao dar uma pausa para observar a vista da janela, que ficava no décimo quarto andar, viu um objeto luminoso arredondado parado no céu, não muito longe de onde estava. Nada impressionado, ficou observando-o, achando que era um helicóptero. Até que, de súbito, a coisa saiu cortando o céu rapidamente, fazendo movimentos secos e abruptos, deixando um rastro de linhas geométricas no céu, que iam se apagando conforme o objeto se movimentava. Assustado, sentiu um calafrio, era evidente que não se tratava de um helicóptero. Assim que o artefato desapareceu no céu, Edson pegou suas coisas imediatamente, tomado de intensa ansiedade e foi embora imediatamente, com o cú na mão e as pernas tremendo, para dizer o português claro. Ao contar a experiência para seu irmão e seus amigos, foi tachado de louco. Apesar de tirarem um sarro dele, Edson estava muito convicto do que viu, tendo inclusive adquirido o hábito de ficar observando o céu diariamente, o que levou-o até mesmo a comprar uma luneta. De tanta busca, o objeto voltou a visitá-lo. Há cerca de um mês atrás, em seu apartamento, que tem vista para o Pico do Jaraguá, acordou cedo de manhã e olhou pela janela, avistando o trambolho luminoso parado a uma distância semelhante à da primeira vez. Imediatamente, acordou sua esposa, que veio ver o ocorrido. Apesar do objeto ainda estar lá, Edson afirmou que sua companheira não se sentiu muito impressionada com o que viu. Não importava, ele sabia exatamente do que se tratava.

Um clima indecifrável tomava conta dos correspondentes de Zaso Corp., enquanto Edson se despedia simpaticamente dos três jovens. A intensidade de seus relatos foram um tanto impactantes. Uma necessidade de digerir o ocorrido se viu necessária, nada que dez minutos de caminhada sem rumo não resolvessem.

02Felizes com o material que tinham em mãos, os zasalhas queriam apenas mais um entrevistado(a) para se sentirem de missão cumprida. Enquanto andavam, os jovens comentaram de maneira jocosa que poderiam encontrar o lendário crítico musical Regis Tadeu a qualquer momento. Seria uma maneira de coroar aquela empreitada. Incrédulos com a possibilidade, apenas continuaram a rumar. Durante mais de quinze minutos, iam aplicando suas abordagens, que nem sempre funcionavam. Enquanto andavam, avistaram uma cena curiosíssima, que infelizmente não foi clicada pelas lentes do fotógrafo Leandro Furini. Dois jovens de origem latino-americana, o que parecia ser do Peru, ou Bolívia, andavam lado a lado vestidos exatamente da mesma maneira. Tinham o mesmo cabelo, mesma camiseta de banda (que parecia ser alguma coisa “emo”) e as mesmas calças. A cena parecia ficção. Curiosos, os zasalhas se aproximaram dos dois transeuntes para tentar puxar uma palavra com eles. Ariscos, apenas balançaram a cabeça e apertaram o passo, deixando os nossos correspondentes na mão. Sem forçar absolutamente nada, apenas observaram a cena, lamentando que aqueles dois roquistas não lhes deram atenção. Sem perder a esperança de um ótimo relato, continuaram a vagar.

11O horário ia ficando cada vez mais tardio, as quatro da tarde já batiam no peito da juventude. Em meio a uma pilastra e algumas escadas, Jonas teve um surto, aplicando pulos escangalhados no ar e chamando a atenção de populares. Enquanto Leandro e Daniel viam a cena sem entender absolutamente nada, o possuído jovem apenas apontava em direção a uma loja de discos. Não era possível, aquilo só poderia ser obra de um roteirista dodói da cabeça. Se tratava de nada mais, nada menos, que Regis Tadeu! É como se toda a empreitada que estavam construindo estivesse fadada àquele destino, quase que como algo sobrenatural. Seria a segunda vez que os zasalhas teriam contato com Regis, três anos e meio depois. Tão sorrateiros quanto cobras do mato, nossos correspondentes iam seguindo os passos do crítico musical, que ia entrando e saindo de dentro de algumas lojas de discos. Toda vez que se preparavam para abordá-lo, hesitavam por conta do semblante missionário que Regis carregava. Ele parecia compenetrado em sua missão atrás de vinis. Em um momento um pouco mais relaxado, em que Tadeu mostrava-se mais vulnerável, os zasalhas aproximaram-se dele, enquadrando-o. Receptivo e levemente desconfiado, Regis ouvia o que os jovens tinham a dizer, aceitando responder as suas perguntas e fazendo parte, assim, do estudo comportamental larápio que nossos correspondentes empreendiam.

Grand Finale

Regis Tadeu, nascido na cidade de São Paulo há cinquenta e sete anos atrás, é dentista de formação, crítico musical de profissão e colecionador de discos de coração. Além de escrever para colunas em sites como Yahoo, é figura carimbada da televisão brasileira, como apresentador de diversos quadros, principalmente como jurado de programas de auditório como os de Raul Gil e de Luciana Gimenez. Morador do bairro da Vila Leopoldina, partiu a bordo de seu automóvel em direção à Galeria do Rock naquele belíssimo sábado. Entusiasta de um prato bem servido com arroz, feijão, salada, bife e dois ovos com gema mole, tem especial apreço por garimpar vinis, fazendo o trabalho de “formiga arqueológica”, como ele mesmo denominou. Sua missão na galeria era quem sabe achar, sem nenhum tipo de pressão ou compromisso, algum disco que lhe interessasse. Como ele mesmo afirmou, é um cara solteiro e pode gastar em discos ao invés de fraldas. Frequentador assíduo de feiras de vinis, disse não gostar de sair de casa com a missão de encontrar alguma obra específica. É adepto do deixar acontecer. Apesar do desprendimento, disse que atualmente está interessado em um álbum da banda Flint, formada por ex-integrantes da lendária Grand Funk Railroad. Segundo ele, achou que possuía tal obra, descobrindo posteriormente que estava equivocado. Iniciado ao gênero róque por seu pai, que apesar de ser um militar de extrema-direita possuía alguns discos dos Beatles e Roberto Carlos, Tadeu tem a música como parte diária de sua vida. Segundo o próprio, não tem banda favorita, já que a mesma muda toda semana. Naquele momento, o conjunto musical que mais lhe apetecia era The Who. Inclusive, recomendou a obra Tommy para os jovens zasonautas. Como não poderia deixar de ser, Zaso Corp. ansiava ouvir da boca d’Regis qual a banda que mais detesta, apesar de já saberem a resposta. Sem titubear, respondeu de boca cheia que é Manowar. Para ele, a banda tem músicas ruins, conceito mentiroso, imagem péssima, arranjos feios e tocam muito mal. Sem mais.

Zaso Corp. não via problema algum em quebrar o protocolo da empreitada, já que Regis não havia consumado a compra de camisetas de bandas. Apesar de não ter praticado o consumo de roupas de gênero róque, afirmou que as última peças torácicas que comprou foram de Frank Zappa e Lemmy, na Feira do Vinil, há cerca de três semanas atrás. Confiante, disse que não há banda que ele goste e não usaria a camiseta, muito pelo contrário, usa a camiseta até mesmo de bandas que acha tão ruins que se tornam boas. Um ponto de vista curioso. Sua coleção de camisetas, que gira em torno de quarenta a cinquenta peças, vem recebendo constante rotatividade, já que ele costuma doar as vestes que vão desmanchando ou ficando inutilizáveis. Algumas destas camisetas foram compradas ao longo de suas quase quatro décadas de convivência no espaço da Galeria do Rock. A primeira vez que esteve lá foi em torno de 1978, tendo como referência o lançamento de Highway to Hell em vinil, no Brasil. Esta é a lembrança mais vívida que possui de seu início de relação com o local. Para ele, o que mais mudou ao longo destes anos foi em relação às lojas de discos que deixaram de existir para se tornar lojas de “menininhas pseudo-raivosas” e “garotos emos com pouca testosterona”. O lado ácido e irônico de Regis Tadeu estava botando a cabeça para fora da toca, era exatamente o que os zasalhas esperavam. Acerca da coisa mais bizarra que já vira na galeria, afirmou não saber nem por onde começar, citando, ao final, um rapaz vestido de Batman que, para ele, é a prova de que algumas pessoas deviam fazer vasectomia. Ao contrário do jovem fantasiado, Regis não possui ídolo. Inclusive, se pudesse parabenizar alguém, parabenizaria ele próprio, por aguentar tanta burrice ao seu redor. Palavras duras de um veterano que, além de não possuir nenhum medo, acredita que uma palavra que não define-o é arrogância. Em se tratando de uma que o define, disse ser sinceridade. Sinceridade essa que muitas vezes acabou por gerar reações adversas em algumas pessoas. Há cerca de um ano atrás, na saída de um show de sua banda, onde toca bateria, realizado no The Pub (exatamente onde os zasalhas encontraram Regis pela primeira vez), um popular veio achincalhá-lo enquanto o mesmo guardava seus instrumentos no carro. De cabeça erguida, afirmou que partiu para cima do putalha, lhe quebrando o nariz. Assim como porrou sem dó o fanfarrão que veio lhe torrar a saca, disse que se pudesse arrebentar a cara de alguém, daria uma surra em Jair Bolsonaro. Nada menos do que uma excelente resposta.

As palavras de Regis Tadeu iam ecoando pela galeria, alguns dois ou três populares se aglomeravam timidamente perto da entrevista, aparentando não saber exatamente quem ele era. Já em tom mais descontraído, Regis afirmou odiar dobradinha de fígado, tanto quanto acha feia a atriz Regina Casé. Por outro lado, tem um apreço enorme por Peta Wilson, eternizada pelo seriado dos anos 90/2000, La Femme Nikita. Em se tratando de papilas gustativas, afirmou que suas bebidas alcóolicas favoritas são Jack Daniels e Southern Comfort, enquanto sua preferência por bebericos não alcóolicos transitam pelo vasto mundo dos chás. Seu ódio pelo que chama de cervejas de milho é tamanho que disse preferir beber urina de papagaio. Hermético. Assim como nosso amigo e recém-entrevistado Edson, Regis acredita em E.T’s, tanto que acha que não só existem como estão vivendo entre nós. Perguntado se teria um carro conversível, respondeu com firmeza que não, pois é heterossexual. Mesma resposta dada quando questionado se sabia andar de bicicleta. Segundo Regis, tem habilidade dez para bicicleta, enquanto se dá uma nota oito para a natação, afirmando que se pudesse nadar de bicicleta, seria melhor ainda.

Para finalizar a entrevista que estava atingindo requintes de epopéia, Regis foi questionado sobre uma gafe marcante que cometeu. Se postou a pensar bem, ao ponto de quase sair fumaça por suas orelhas. Com um estalo de dedos, disse que uma grande cagada que cometeu foi com o apresentador Raul Gil. Para quem não sabe, Regis é jurado do programa de Raul, participando de um quadro em que calouros são julgados por júri supostamente especializado. Em um destes programas, uma garota entrou em cena para mostrar aos jurados seus dotes musicais. Ao fim de sua apresentação, Regis disse-lhe que ela tinha a voz da Aracy da Top Therm, famosa vendedora da iogurteira mais famosa do Brasil. Irritado, Raul Gil parou o programa imediatamente para dar uma bronca homérica em Regis, dizendo que ele não podia falar isso já que a Top Therm é anunciante do programa. Constrangido, Tadeu pediu mil desculpas e deu graças pelo programa não ser ao vivo, caso contrário, estaria no olho da rua. Como não poderia deixar de ser, os zasalhas perguntaram para Regis se Raul é uma pessoa legal e se eles se dão bem. Diplomaticamente, Regis afirmou que Raul é uma pessoa ótima com ele e que eles se tornaram grandes amigos, ao ponto de frequentarem a casa um do outro. Perguntado sobre como Raul agia com outras pessoas que não ele, Regis se ateu apenas a afirmar que não sabia dizer ao certo e que Raul sabe da importância que tem para a televisão brasileira.

12
Este homem é o dentista, jornalista e crítico musical Regis Tadeu. Ele é entusiasta do gênero róque. No alto de seus 57 anos de idade, afirma não gostar de dobradinha, ser grande amante de chá, não ter nenhum ídolo e que uma palavra que não o define é arrogância. Afirmou saber andar de bicicleta muito bem, tanto quanto nadar, concluindo que se pudesse nadar de bicicleta seria melhor ainda. Não teria um carro conversível pois é heterossexual e se pudesse enfiar a mão na cara de alguém, seria na fuça de Jair Bolsonaro. A banda que mais detesta é Manowar e se pudesse parabenizar alguém, parabenizaria a si próprio, por aguentar tanta burrice.

Ao se despedirem de Regis Tadeu, os correspondentes de Zaso Corp. souberam que sua missão na Galeria do Rock estava cumprida. Como em um ciclo perfeito que se fechava, os zasalhas foram descendo as escadas refletindo com intensidade sobre suas experiências. Pouco antes de irem embora, tiveram a ideia de tentar uma entrevista saideira. Um ato falho. Ao chegarem perto de um dos seguranças do local, um homem adulto de origem asiática, no alto de seus quarenta anos de idade e com feições de mal-humor crônico, perguntaram-no se ele queria dar uma palavrinha para Zaso Corp.. O homem, que já tinha semblante sisudo, fechou a cara mais ainda, dizendo que eles precisariam de autorização para tirar fotos na galeria. Assim que começou a fazer perguntas sobre o que os jovens faziam no local, ficou evidente que era hora de ir embora antes que o funcionário resolvesse meter a mão na câmera de Leandro. O mais curioso disso tudo é que, dias depois – com as fotos reveladas -, os zasalhas perceberam que em uma das fotografias podiam ser vistos dois seguranças que claramente observavam a atividade dos zasalhas, fazendo uma espécie de vista grossa, até o momento da abordagem. O motivo? Não se sabe. O mais abaixo, indicado por seta, era o funcionário abordado por nossa equipe.

Independente do que tenha acontecido com a segurança do local, os correspondentes de Zaso Corp. foram embora da galeria sem olhar para trás, como em um filme podreira de ação, onde uma câmera lenta acompanha-os frontalmente, mostrando o momento em que uma enorme explosão arremessa o local pelos ares atrás deles, deixando-os intactos e sem deixar de olhar para frente por nenhum momento. Paz.

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