Genival – O Baixeiro Cabeleirista

Fotos: LEANDRO FURINI | Texto: JOE BORGES | Baixista: CABELEIREIRO

A profissão de cabeleireiro é uma das mais tradicionais de todo o planeta, transcendendo costumes, ideologias, gênero, altura, idade, gordura corporal e cultura. Tendo em vista que uma parcela extremamente considerável da população mundial é portadora de pêlos na região superior da cabeça, o ofício em questão se torna ainda mais fundamental, sendo que mesmo aqueles que não possuem pelagem no topo da jaca ainda podem usufruir dos serviços prestados pelo cabeleireiro(a) de outras maneiras, dando aquele trato na barba, por exemplo. Há alguns meses atrás, e sem qualquer intenção de corte capilar, o zasóia Leandro Furini andava com a tranquilidade dos justos pelo bairro da Vila Nova Conceição quando subitamente começou a ter a caixa torácica preenchida por notas graves que pareciam sair de algum lugar muito perto. Hipnotizado e percebendo que aquele som vinha da mesma calçada em que estava, deu uma dezena de passos em direção ao epicentro da balbúrdia, dando de cara com um simpático homem de meia idade, mullets acinzentados, óculos escorregados ao pé do nariz, camisa aberta três botões abaixo do gogó e empunhando nada mais nada menos que um parrudo baixo elétrico ligado a um potente amplificador. Solitário, tocava seu róque clássico do início dos anos 80 sentado numa banqueta, tudo isso com seu salão de cabeleireiro como cenário. Estava ali a figura icônica, destemida e que não se importa em brocar os alicerces da sociedade misturando tapa no telhado com o groove da baixola. Genival, o baixista cabeleireiro.

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Instigado com a figura apoteótica, que já havia sido citada a ele anos atrás por um amigo de infância que foi morador das redondezas, Leandro resolveu contar a Jonas sobre o acontecido e então veio a idéia de conversar com Genival sobre suas fascinantes peculiaridades. Como de praxe, resolveram se reunir alguns minutos antes para afinar a abordagem. O local escolhido foi um botecão/ restaurante de esquina no mesmo quarteirão que o cabeleireiro. Enquanto conversavam sobre música, cortes de cabelo e coisas do gênero, uma figura judiada e claramente abatida pela cana encostou ao pé da mesa, tímido e louco para puxar assunto. O surrado sujeito se aproximou perguntando se os zasos eram músicos ou gostavam de um róque, foi a deixa para a parasitagem. John Lennon Mertins, sim, esse é seu fantástico nome registrado em cartório, era um ex-hippie, se é que é possível deixar de sê-lo, que havia vindo de Porto Alegre para São Paulo junto com seu pai, que, segundo ele, era vendedor de carros na região da Avenida Bandeirantes. Com seu tom de voz cansado e displicente, trouxe à tona uma informação bombástica que chamou a atenção dos zasos como um baque: a de que ele era baixista e que já havia tocado na banda Sepultura em uma formação primordial, informação de procedência fecalóide e duvidosa, mas que não deixou de fazer com que as antenas dos jovens ficassem em riste. A coincidência baixolista girou a chave de atenção dos zasos, que até então apenas achavam o homem inoportuno, agora ele era inoportuno e baixista. Em meio às suas histórias de procedência duvidosa, sua irmã, uma figura de massa corporal enxuta e face irritadiça, apareceu quase puxando-o pelo pescoço com uma bengala. Segundo ela, eles estavam indo pegar o ônibus em direção a um hospital, informação que contradisse John Lennon diretamente. O cidadão havia dito que seu carro estava parado a algumas quadras, o que apenas endossou mais ainda seu show de contradições. Para finalizar a interação de sucesso, o devoto fervoroso de São Gabriel, informação cedida com exclusividade por sua irmã enquanto o mesmo ia no banheiro, ainda fez questão de dar um autógrafo no caderno de anotações de Joe Borges, fato que causou sentimentos desconexos nos zasóides, que apenas permitiram que ele consumasse o rabisco. Claramente querendo conversar mais, John Lennon acabou vencido pelo apelo de sua irmã e foi embora em direção ao ponto de ônibus , sumindo em meio ao concreto excessivo.

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Momentos.

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Autógrafo de John Lennon.

Ainda meio atordoados com a aparição do baixista John Lennon, os zasos quitaram seus consumos no estabelecimento e partiram em direção ao Genival Cabeleireiro Unissex, que já estava ciente da chegada dos jovens. O baixo do protagonista já podia ser ouvido, era sinal de que o expediente já havia sido encerrado e o lazer ascendera absoluto. Ao chegarem à frente do local, receberam olhares de aprovação de Genival, que esmirilhava ao som da banda Journey. Timidamente, adentraram o recinto e foram recebidos com grande efusividade pelo cabeleireiro, que deu uma verdadeira aula de cordialidade. O salão apresentava um clima acolhedor e simples, com detalhes que remetiam diretamente à metade dos anos 80 e começo dos 90, claramente a era que mais apetecia nosso herói. Alguns elementos já começaram a chamar a atenção logo de cara, como um telefone público roxo, de um carisma imensurável, um pôster desbotado de uma Ferrari F40, que parecia ter a idade do Felipe Dylon, e, com certa modéstia por estarem num canto não muito visível, uma sequência de troféus que pareciam ter importância considerável. Confortáveis, os zasalhas começaram a conversa, sem que o cd player de Genival parasse de tocar e preencher o ambiente por nem um segundo.

Genival Martins, nascido em Euclides da Cunha, Bahia, há exatos 51 anos, veio para São Paulo com a família aos 10 anos de idade, se estabelecendo no bairro de Santo Amaro. Em épocas de pré-adolescência, já tinha relação direta com a música, acompanhando de perto bandas regionais, sobretudo de forró. Em meados da mesma época, começou a fazer aula de bateria, tendo estudado com nomes de calibre federal, como Duda Neves e Flávio Pimenta, o que resultaria em uma paixão intensa e incondicional pelo instrumento. Alguns anos depois, na meiuca da adolescência, começou a se interessar bastante por bandas de róque clássico como Boston, Rush e Journey, também influenciado por muitos amigos e conhecidos da época, o que acabou criando um laço mais forte ainda com a música. Independente de seus diversos trabalhos ao longo de sua juventude, principalmente como funcionário de estacionamento e como motorista, a bateria sempre foi sua válvula de escape mais eficaz. Já no ramo dos cabeleireiros há 30 anos, teve como principal labuta anterior a de motorista particular, tendo servido no ramo durante anos, sobretudo em função de famílias e personalidades abastadas e absolutamente besuntadas na bufunfa. Entre eles, podemos citar nomes como J.R. Duran, as filhas de Silvio Santos e a família Quércia. Na época, Genival se sentia um tanto deslocado, apesar de afirmar que nunca fora mal-tratado por nenhum de seus patrões, e começou a se interessar pelo mercado capilar graças a seu grande amigo, mentor e cabeleireiro particular, Castorino. Citado com muito respeito por Genival, o seu oráculo incentivou-o de maneira efusiva a mudar de meio de atuação, observando a insatisfação crescente que ele vinha sentindo. Na época, Castorino participava de diversos concursos de cortes capilares, sobretudo promovidos pela ACAUB, em que Genival cedia sua cabeça gentilmente para servir de modelo para seus mirabolantes cortes,  suntuosos topetes do gênero rock’n’roll. Castorino era do mesmo bairro que Genival, o que facilitou a relação entre os dois. Cada vez mais inserido no meio, ainda que por hora como modelo, o nosso herói passou a se sentir cada vez mais seduzido pela possibilidade de deixar o trabalho de motorista particular de lado. Motivado, resolveu avisar a família Quércia, seus patrões na época, que iria fazer uma série de cursos a fim de se tornar apto a ser um cabeleireiro profissional. Compreensivos, apoiaram a decisão de Genival, que utilizava o trabalho para pagar seus cursos. Sua rotina na época não era brinquedo não, saía de Santo Amaro em direção à casa dos Quércia em sua moto 125cc para trabalhar, deixava-a por lá para pegar um ônibus em direção ao seu curso, que ficava no centro da cidade, para só então, ao fim da noite, voltar, pegar sua motoca novamente e partir de volta para casa, chegando todos os dias em torno da uma da manhã. Assim que começou a agilizar seus bicos como cabeleireiro na periferia da zona sul, resolveu que era hora de dar adeus ao mundo dos motoristas particulares e entrar de cabelo no mundo dos cortes capilares.

Depois de uma década absorvendo experiências e trabalhando em salões na região do Campo Belo, Moema e na própria Vila Nova Conceição, Genival sentiu que era o momento de alçar um vôo mais alto e resolveu alugar seu próprio espaço para concretizar o próprio salão, há 18 anos atrás. Este salão, localizado próximo da Avenida Santo Amaro, é exatamente o local em que os zasalhas se encontravam conversando com o baixista cabeleireiro. Em meio a trocas de cd’s e cigarros, Genival ia contando sua trajetória. Nada adepto da cultura de baixar músicas na internet, o nosso protagonista ainda prefere comprar cd’s, sobretudo na região da Teodoro Sampaio, que frequenta de maneira assídua. O último cd que comprou foi o debute da banda Boston, que ele não parou de elogiar e inclusive se prontificou a colocar no seu poderoso cd player. Genival confidenciou que os tempos mais difíceis de salão foram os primeiros oito meses, sobretudo por conta de sua condição familiar, que envolvia sua ex-mulher e filho pequeno. Ao menos no quesito clientela, o cabeleireiro estava se dando deveras bem, sua boa relação com muitos ex-patrões fez com que eles se tornassem clientes frequentes. Cuidadoso, sempre fez questão de manter o salão na estica, o que fez com que inclusive celebridades que sequer foram seus susseranos viessem até ele para um tapa na telha. Segundo o mesmo, essa clientela peculiar, que envolvia Amaury Jr. em seu currículo, lhe rendeu boas histórias. Certa vez,  há 14 anos atrás, Genival trabalhava tranquilamente quando duas figuras torradas de sol e com ginga lelética adentraram o recinto. Absorto, reconheceu que eram os inseparáveis Eri Johnson e Edmundo. Frito pra caralho que é, Eri não deixou de observar a bateria montada ao fundo do salão, na época Genival tocava-a no local pois sua casa não comportava tal aparato magnânimo. Johnson não titubeou em pedir para tocar a bateria do cabeleireiro, que não negou a brincanagem a Eri, que fez um barulho desgracento dentro do salão, digno de dar piripaque no gato do vizinho. Observando tudo, Edmundo permancia quieto e tranquilo, esperando pelo seu momento de ter o cabelo cortado, fato que se consumou em instantes. Se um amplificador e um baixo já chamam a atenção, imagina uma bateria inteira no fundo do salão, devem ter sido grandes momentos. A bateria logo saiu de cena assim que Genival possibilitou um espaço para ela em sua casa, um amplificador e um parrudo baixo ocupariam seu lugar dentro do rico santuário denonimado Genival Cabeleireiro Unissex.

A título de poesia, disponibilizamos exclusivamente o audio do relato de Genival sobre a peripécia realizada por Eri Johnson em sua bateria, algo que merece ser eternizado.

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Genival e sua banda, Lady Murphy.

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Genival tem um histórico de três intensas bandas. A primeira foi ainda juvenil, do gênero forró, onde tocava zabumba, enquanto seu irmão tocava triângulo. A segunda se chamava Néctar, um róque nacional clássico, que deu vida a um cd raríssimo e até mesmo tendo ganho um concurso nos anos 90 em um bar da zona sul de São Paulo. Atualmente, e já com treze anos de estrada, faz parte do conjunto musical Lady Murphy, conhecido também por atuar dentro do gênero róque brasilóide e fazer um circuito considerável de shows por bares da noite paulistana, ainda em forte ativa, sobretudo aos sábados, quando ele pode dar aquela escapada pós-expediente com mais tranquilidade, honestidade e sustentabilidade. Porém, ao contrário do que os curiosos transeuntes que acompanham seus dedilhados graves no baixo podem vir a imaginar, Genival nunca sequer colocou o instrumento ao redor dos ombros dentro de uma banda, fato inclusive que ele pretende mudar a todo custo. Em todos os seus projetos musicais, seu instrumento de ataque foi a bateria. O baixo é uma paixão relativamente nova em sua vida, começou a fazer aulas particulares há cerca de seis anos, tendo evoluído rapidamente. Nos primórdios, tinha um humilde Giannini e um amplificador Meteoro, seus companheiros de arranhar um barulho. Conforme foi evoluindo, adquiriu um gordalho amplificador GK, com cabeçote valvulado britânico MAG600, e dois baixos, um Fender Precision American Deluxe e um GL L2000 de 1989, que ele portava no dia do encontro com os zasários. O instrumento pertenceu a uma figura emblemática e já conhecida de Zaso Corporation, fato que estourou a tampa da panela da zasada. Genival adquiriu todo seu aparato com um camarada seu que administra uma ótima loja de instrumentos, se tornando um grande acostumado a frequentar o local. Em fatídico dia, chegou ao recanto como quem não quer nada e se deparou com o aniquilante Paulo Roberto Diniz Júnior, conhecido como PJ, o baixista da banda Jota Quest, o Jamiroquai Série B. Se você não entendeu a referência e não sabe qual a relação entre Zaso e PJ, sugiro com absoluta violência que você clique aqui. Seu amigo do ramo dos instrumentos musicais apresentou-os e possibilitou a compra do instrumento, que se tornou o xodó de Genival desde então, uma coincidência que arrepiou os pêlos da sobaca dos juvenaltas. O que mais atraiu o baixeiro neste instrumento foi a versatilidade de timbres que ele possibilita, trazendo deleite e prazer para a vida de nosso protagonista. Sem beber ou usar qualquer tipo de droga, apenas café e cigarros, Genival se apega à música de maneira absoluta como forma de catarse, utilizando seus fins de expediente para tirar um cover, não é chegado a composições próprias, procurando tirar as músicas de ouvido e deixando-as o mais próximo possível sem qualquer tipo de floreio, um perfeccionista. Depois de explicar de maneira fascinante sua trajetória musical, nada mais justo que dar mais uma palhinha de suas habilidades baixolásticas, atacando a canção More Than a Feeling da já citada banda Boston.

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Esmirilhando a chapeleta.

Apesar de já terem dissecado de maneira satisfatória a trajetória apoteótica de Genival, faltava um detalhe, seus troféus, que eram poucos no salão, mas inúmeros em sua casa. Segundo o nosso protagonista, resolveu seguir os passos de seu mentor, Castorino, e adentrar concursos de penteados, tendo conquistado diversos com louvor indiscutível. Até mesmo sua abordagem capilar se mostrou a mesma que a de seu amigo, escolhia um modelo, que não necessariamente seria de agência ou caralhada do tipo, preparava seu cabelo por durante uma semana e então aparecia de maneira pomposa no concurso. O primeiro prêmio veio cinco anos depois de adentrar a profissão, e quase dez antes de consumar seu próprio salão, que cuida com afinco louvável. O último concurso conquistado foi em 2002, na ACAUB. Segundo Genival, não tem arrumado tempo suficiente para adentrar mais concursos, já que precisa lidar com sua banda, seu salão e todas as outras despesas e responsabilidades que envolvem família e máquinas de locomoção, conhecidas como carro e moto.

Segundo Genival, tocar baixo dentro do salão não atrai clientes, apenas curiosos, fato que não parece abatê-lo, muito pelo contrário, está satisfeitíssimo com a maneira como seu salão vai caminhando, sempre atualizado e com as reformas necessárias em dia. Nosso herói é uma daquelas pessoas que exalam plenitude, percebe-se em sua maneira serena e satisfeita de falar que ele é uma pessoa que vive e respira as coisas que ama fazer. É extremamente prazeroso observar que ele teve a culhóse de abandonar seu trabalho entediante, e desprovido de empatia, de motorista particular e dar uma enorme reviravolta em sua vida para virar o lendário e enigmático baixista cabeleireiro.

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Nota de preza para Genival: Se você é um entusiasta do róque, sobretudo relacionado aos anos 70, 80 e 90 e precisa de um baixista para sua banda, seja para quais fins ela tiver, contacte nosso protagonista e convide-o para um ensaio despretencioso, ou pretencioso se assim desejar. Dedicado e perfeccionista, dá extremo valor para ter uma banda com grau de comprometimento alto. Adote-o para seu conjunto musical e ainda aproveite para dar aquele tapa no visual. Como? Ligue para 3046-1253/ 99782-8053, ou compareça à Rua Brás Cardoso, 696 – Vila Nova Conceição, de preferência depois das 19h, para conseguir conferir uma jam exclusiva para você e sua família.

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