Turfista Calhorda — Apostando em Cavalos com o Melhor Diretor Pornô do Brasil

Fotos: LEANDRO FURINI | Texto: JOE BORGES | Turfista: MARCO CIDADE

A cada 365 dias, aproximadamente, ocorre uma premiação para decidir quem foram os grandes destaques do mundo do entretenimento adulto brasileiro, o PIP, vulgo Prêmio da Indústria Pornô. A festa é tratada como o Oscar do pornô nacional, representando grande prestígio para a categoria. No ano de 2014, o vencedor do Prêmio de Melhor Diretor foi Marco Cidade, amigo de infância da entidade Zaso e também protagonista desta empreitada traduzida através de fotos e texto. Conhecido pelos mais próximos, e pelos distantes também, como sendo um grande entusiasta da fanfarronice, Marco tem um passado de jogatina considerável, sobretudo em máquinas caça-níqueis de boteco, escondidas atrás de empoeirados biombos. Porém, pela primeira vez, seria introduzido ao polêmico, e geriátrico, mundo das apostas em corridas de cavalos, também conhecido tecnicamente como turfe.

O sábado nublado de Halloween, mais conhecido como 31 de Outubro, ia ganhando forma enquanto Joe Borges e Leandro Furini almoçavam numa padaria do bairro da Pompéia, Marco Cidade aguardava-os ansiosamente passarem de carro para levá-lo até o Jockey Club de São Paulo. Aquele universo era particularmente novo para os três, que nunca antes haviam sequer pisado no suntuoso local, o que criava uma série de expectativas folclóricas acerca do que viria a acontecer. Passaram em frente à casa da namorada de Marco para pegá-lo, não demorando para avistar o glorioso, que soltou um grito de saudação ao vê-los se aproximando. Acompanhado de sua senhorita, trajando uma bela camisa Fígaros, sua marca de roupas (de dar inveja ao bicheiro mais safardana da paróquia) e portando uma cerveja Original de 600ml, Marco adentrou o carro com seu já tradicional e peculiar humor putêico, não tardando a falar sobre o workshop de filmagem pornográfica que estava ministrando e de algumas entrevistas que fez recentemente, grandes momentos de sua vitoriosa carreira. O pequeno Ford Ka de Leandro partiu em direção ao Jockey de maneira confiante, já com as 14h da tarde se aproximando. Depois de um leve trânsito na Marginal e de algumas leves confusões com portões e entradas, os jovens pararam o carro do lado de fora, onde residências abastadas dividem espaço com transexuais trabalhando para ganhar seus dinheiros, numa perfeita e harmoniosa comunhão. Era o início da empreitada.

O protagonista e os zasíveis andaram alguns bons passos até chegarem ao portão certo que lhes daria acesso ao local prometido. Eis que lá estavam, colocando os pés dentro da propriedade pertencente ao Jockey Club de São Paulo, que, ao contrário do que as débeis mentes zásicas imaginavam, estava aparentemente bem conservado e ainda mantinha todo um charme elitista que lhe era peculiar. Logo de cara, já avistaram automóveis que valiam mais do que o PIB de países africanos e algum movimento acontecendo no que parecia, e era, ser um restaurante com varanda e vista para a pista de corrida. Ainda um tanto tímidos, andaram em direção ao tal restaurante, passando por um caminho de pequenos pedregulhos com uma porteira que era aberta, ou fechada, conforme os cavalos eram conduzidos pelos adestradores para um simpático descampado, cercado por uma cerca, veja só. Do lado de fora do restaurante, que ficava praticamente de frente para o tal descampado, um grupo de pessoas, que pareciam ter acabado de ser entrevistadas pelo Ibrahim Sued, estava transando um belo Blue Label e degustando petiscos da mais fina estirpe, sentados em uma mesa de vidro e devidamente protegidos por um parrudo guarda-sol. Já tendo adentrado o estabelecimento, os jovens aventuróides receberam alguns panfletos que diziam respeito aos páreos do dia e instruções de como proceder com relação às apostas, elas ocorreriam num enorme saguão que mais parecia um terminal rodoviário luxuoso, em outras dependências fora do restaurante. Antes de partirem para o saguão, ainda tiveram tempo de apreciar alguns cavalos que estavam no descampado, acompanhados de seus cuidadores.

Menos de cinco minutos de caminhada foram suficientes para que os zasos chegassem ao saguão principal de apostas, suntuoso e repleto de vigas de mármore levemente desgastadas pelo tempo. Correndo os olhos rapidamente ao redor, pôde-se perceber uma grande e massuda central de guichês, onde alguns senhores se aglomeravam em fila para concretizar seus palpites. Os jovens se dirigiram lentamente, e de maneira bastante observativa, em direção aos guichês, se alternando entre consultas aos panfletos de informações e olhares curiosos ao redor. Por não terem nenhum traquejo com o ambiente e destoarem de maneira federal do resto dos presentes, as atenções eram voltadas para eles, ao menos na fila, pois uma outra parte dos presentes, já de apostas feitas, estava atenta ao que acontecia nas muitas tevês espalhadas pelo recinto. Pessoas de diversas formas e formatos, algumas muito obtusas, dividiam mesas e espaços no saguão, sempre bastante apreensivos. O clima do local oferecia algum tipo de tensão, que se sobrepunha à diversão e esporte, afinal, estamos falando de dinheiro em jogo. A média de idade dos frequentadores parecia superar os sessenta anos, podia-se observar com clareza a presença de diversas figuras geriátricas de poder aquisitivo abastado e entusiastas da serotonina liberada pelas apostas, como era o caso de nosso herói, Marco Cidade, que ia claramente se sentindo cada vez mais à vontade com a possibilidade de colocar algumas Dilmas em jogo para uma possível bolada de prêmio. A apreensão e desconfiança iam dando espaço para uma euforia um tanto jocosa, era hora de iniciar os trabalhos. Os juvenalhas pararam em frente ao primeiro guichê para esclarecer algumas dúvidas com o operador do caixa, o que causou uma certa ansiedade nos apostadores que se enfileiravam atrás, eles não estavam nem um pouco felizes de terem que esperar que os zasulhas tirassem suas dúvidas para concretizar seus palpites. Tendo percebido isso, os jovens resolveram ir até um balcão de informações antes de voltar novamente ao guichê. O balcão ficava próximo, não era nada mais do que uma bancadinha simpática de madeira com uma moça entediada a observar o que acontecia ao redor. Chegando até lá, foram bem recebidos e a moça prontamente levou-os até uma das tevês mais próximas para explicar-lhes algumas nuances do jogo, que foram rapidamente compreendidas (ao menos era o que parecia). Em meio à explicação da moçoila, um atencioso senhor, que parecia bastante judiado por abusos alcóolicos cometidos por si mesmo, explicou-lhes mais algumas estratégias e idéias acerca do jogo, não tardando a voltar sua atenção diretamente para a tevê que anunciava o início de um páreo no Jockey Clube da Gávea, no Rio de Janeiro, também transmitido no local. Já um pouco mais inteirados, os zasos resolveram voltar ao guichê e realizar as primeiras apostas, voltadas para o vencedor da corrida, apenas uma das modalidades disponíveis. O mínimo a ser apostado era três reais, foi exatamente o valor da primeira leva, o que mostra a humildade dos nossos heróis perante a situação. Marco era o mais animado, sentia-se uma confiança pairando sob seu boné, o que fez com que ele já garantisse a aposta de mais alguns páreos. O páreo só iria ocorrer em cerca de quinze minutos, ainda havia tempo para dar uma volta pelo saguão e sacar diferentes detalhes acerca do ambiente. Destes detalhes, o que mais chamou a atenção da rapaziada foi uma apertada cabine de madeira clara com um telefone antigo no centro, com os dizeres “Teleturfe” cravado em seu topo, como um tosco letreiro. Realmente, um interessante monumento. Curiosos, perguntaram no balcão de informações sobre a instalação, que nada mais era do que uma cabine de apostas por telefone, onde o turfista (apostador em cavalos, no termo científico) ligava para o terminal e um funcionário atendia-o prontamente, fazendo assim possível que o mesmo concretizasse seu palpite. Ficava cada vez mais evidente que o Jockey ainda adotava uma série de sistemas e práticas bastante obsoletas tecnológicamente falando, o que aumentava ainda mais a peculiaridade e identidade do local. O Zaso aprova. Nesse meio tempo, Marco resolveu adquirir uma latinha de Skol para acompanhar-lhe em seus mirabolantes planos de jogatina, já era hora de desapegar do saguão um pouco e partir para a área das arquibancadas, onde a magia verdadeiramente acontece.

Uma escada subindo levava os envolvidos até a área das arquibancadas, como se fossem chegar no campo de futebol de um estádio, saindo pelo túnel. A arquibancada era ampla e com uma bela vista para a pista de corrida, que era relativamente longe dos assentos. Os zasantes desceram mais um lance de escadas, já no centro da arquibancada, e miraram quatro assentos que estavam à espera deles. Ao redor, mais algumas figuras peculiares de idade mais avançada observavam-os, sem darem tanta importância, o foco era o páreo, que começaria em alguns instantes. Ainda observando ao redor, e conversando sobre as expectativas da corrida, os jovens escutam um chamado do locutor, que parecia um Galvão Bueno recém-saído da UTI, anunciando que a corrida iria começar. Um telão acusava o que Galvinho dizia, a corrida abruptamente começara, para o delírio dos senhores. Os cavalos saíam de trás do telão, não era possível saber o que acontecia ao vivo, apenas na transmissão do mesmo, que focava nos três primeiros cavalos. Marco era o mais apreensivo, estava compenetradíssimo, tomando sua Skol de canudinho como se não houvesse amanhã. O cavalo em que Joe apostara liderou por uma boa parcela do páreo, sendo ultrapassado do meio para o fim da prova por um batalhão. O fim da corrida era exatamente na frente dos assentos escolhidos pelos zasalhas, o que tornava a coisa muito emocionante, apesar de ninguém sequer conseguir distinguir um corredor do outro. Quando a corrida acabou, todos ficaram se olhando sem saber se alguém havia ganho, a expectativa pairava no ar. O telão maior, onde ficavam as pontuações e estatísticas, tinha uma certa demora para mostrar o resultado. Quando os números pipocaram, algumas pessoas comemoraram ao redor dos juvenalhas, mas, infelizmente, nenhum deles havia sequer encaixado um palpite entre os três primeiros. A ânsia por uma nova aposta tomou conta do ambiente, era hora de levantar e voltar ao guichê, mas não sem antes dar uma volta pelos arredores das arquibancadas e observar um pouco do que acontecia.

O fascinante Homem do Cabelo Roxo.

De volta ao saguão, ali estava postado Marco, apoiado no guichê observando atentamente a lista de apostas possíveis, o 6º páreo do dia estava para começar em cerca de quinze minutos. Dava para ver e sentir que o nosso convidado especial estava ainda mais determinado que da primeira vez, até mesmo sua postura havia mudado e sua expressão denotava uma seriedade raramente vista no fanfarrão diretor de filmes adultos. Depois de muito observar, eis que o nome de um dos cavalos chamou-o a atenção, era Bill Of Law, cavalo de número 6. Marco dirigiu-se abruptamente ao operador do guichê e proferiu prontamente: “ — Coloca três no Bilau! Cavalo número seis.” A afirmação causou uma risada tão intensa em Leandro que o mesmo por pouco não perdeu a vida, seria um dia triste para o Zaso Coporation. Depois da polêmica aposta, Leandro e Joe também deram seus palpites, em outros cavalos diferentes, Just Havin Fun e Take One, respectivamente, enquanto a namorada de Marco resolveu se abster novamente daquela jogatina toda. Fica aqui o relato de que o mundo dos nomes de cavalos de corrida é completamente sensacionalta.

Já de volta aos mesmos lugares na arquibancada, a apreensão estava tomando conta do coração dos quatro jovens. Quando a corrida começou, já não havia novidade, apenas expectativa mesmo. Desta vez havia mais gente ocupando os assentos, sobretudo crianças, que brincavam um tanto histéricamente enquanto a família se entretinha com a corrida, sabe-se lá daonde elas surgiram. Os jockeys iam passando pela grande curva do circuito, era exatamente o momento em que começava-se a ter uma visão clara do que acontecia na corrida, até então tudo era bem nebuloso. Marco começou a se agitar, já com uma nova cerveja em mãos, achando que seu cavalo estava na liderança, sendo prontamente abatido pelos sádicos záseis, que lhes diziam com convicção que não era. Conforme os cavalos iam se aproximando da chegada, a euforia de nosso convidado especial aumentava, o Zaso criou um monstro. A corrida, enfim, acabou. Naquela mesma salada insana e disforme que é a chegada, era praticamente impossível, ao menos para mortais, enxergar o vencedor com clareza. Aquela mesma expectativa que tomara conta de todos se repetiu novamente, a espera pelo placar anunciar os vencedores causava úlcera nos mais fracos. Alguns minutos se passaram e eis que o placar pipoca ligeiramente, o resultado indicava que Marco havia acertad0 o palpite! Míope, ele aperta os olhos para enxergar melhor, enquanto Joe e Leandro já o estavam congratulando com grande entusiasmo, beirando a agressão. Era quase que débil a cena, a euforia tomava conta dos quatro aventuróides, enquanto os olhares inquisitórios dos outros espectadores sequer conseguiam fazer cócegas nos mesmos. Grande momento.

  

Depois de tamanha glória, era hora de desfrutar do tão merecido prêmio, nada mais, nada menos que a bagatela de R$6. De volta ao tão querido guichê, Marco mostrou o premiado bilhete e retirou sua fortuna com o não tão simpático atendente, agora era só alegria. Já de missão cumprida, era o momento triunfal de dar uma última volta e relaxar um pouco, gastando o prêmio nas dependências do Jockey. Afinal, como diz a velha máxima da jogatina, dinheiro do jogo vai pro jogo. Marco ficou perambulando pelas dependências acompanhado de sua senhorita, o Jockey havia lhe apetecido bastante, é provável que tenha nascido aí um dos novos hobbies de nosso herói. Como não poderia deixar de ser, Marco ainda tirou forças para pousar ao lado de seu novo mascote, o Bilau, o que rendeu um belíssimo registro fotográfico, exatamente no mesmo descampado à frente do restaurante que os zasulhas avistaram logo que adentraram as dependências do Jockey Club.

O merecido prêmio.
Bilau e Marco Cidade.

As coincidências e firulas simbólicas que a vida arma para estes putardos que comporam esta aventura são realmente fascinantes. Já tendo evadido do Jockey Club de São Paulo, os turfistas se deram conta do quão bonita foi a conquista de Mayco. O Melhor Diretor Pornô do Brasil em 2014, Marco Cidade, apostou no cavalo Bilau, de número 6, vencendo o 6º páreo e ganhando 6 reais. E sem esquecer de mencionar que toda esta balbúrdia aconteceu no dia 31 de Outubro, Dia das Bruxas. Reflitam.

 
Anúncios
zasocorporation