Maria Izabel – A Guardiã do Alambique

Fotos: LEANDRO FURINI | Texto: JOE BORGES

Mais uma semana ia se passando e os zasalhas Joe Borges e Leandro Furini ainda não haviam definido a próxima pauta para este projeto que você, internauta antenado, desfruta neste momento. Quando nada parecia perdido, Leandro recebe um chamado para fazer uma foto na casa de veraneio de um grande ícone do mundo da política, mercado financeiro e afins neoliberalistas. O trabalho ocorreria em um dos condomínios mais abastados do Brasil, localizado nos arredores de Parati. O advogado pessoal e conselheiro de assuntos legais do projeto, Leo Fagundes, aconselhou o Zaso Corporation a não entrar em maiores detalhes sobre o trabalho realizado na tal mansão, reclamem com ele. Enxergando como uma oportunidade perfeita para desenvolver uma matéria zásica, Leandro resolve contactar Joe, convidando-o para ir para Parati com ele como seu assistente para o tal trabalho fotográfico. O mesmo não titubeou em aceitar tal convite.

Era domingo pela manhã, e o dia havia amanhecido faziam poucas horas. Joe se encontrou com Leandro, portando suas malas de viagem, e ambos saíram de São Paulo, encarando destemidamente a estrada em direção à Parati. Começava a tal empreitada. A viagem de cerca de cinco horas foi recheada de assuntos diversos, problemas com mapas no celular, empresas com nomes polêmicos e duas paradas estratégicas em lojas de conveniência para que alguns quitutes fossem devorados como se não houvesse amanhã, com destaque para um espeto de frango parrudo, do tamanho de uma garrafa de 600 ml, sacrificado com a finalidade de alimentar o zasalha Joe Borges, que saiu extremamente satisfeito do sacrifício. Como não poderia deixar de ser, os záseis iam conversando acerca do que poderiam gerar de conteúdo para o Zaso durante a viagem. Sem pressão, mas sempre com a autocrítica estalando o chicote, ambos iam desenrolando idéias (nenhuma aproveitável até então) enquanto a bela Parati ia se aproximando cada vez mais. Por volta do horário do almoço, os dois chegaram à cidade, que vivia um tempo estranho, deveras nublado e bastante chuvoso.

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Ao adentrar a praiana cidade, tiveram algumas dificuldades técnicas para achar a pousada que haviam reservado. Depois de algumas voltas aqui e ali, finalmente (e com a ajuda de alguns locais) conseguiram achar o recanto prometido, que não era nem de longe como as fotos do site prometiam, mas nada que atrapalhasse a empreitada da rapaziada. Deixaram suas coisas no quarto e, famintos, partiram para os arredores do centro histórico para uma alimentação digna, esbanjando fúria no self-service. De dar orgulho na vó. Depois do almoço, resolveram voltar para a pousada e tirar aquela pestana de bucho forrado, para em seguida ir tomar uma cerveja ao pé da Praia do Pontal, próxima do centro histórico. Adiantando um pouco a fita, a noite ia chegando com força enquanto o centro histórico vibrava calmamente com alguns bares abertos e pessoas que passeiavam tranquilamente, apesar da fina chuva que caía. Em um desses bares, lá estavam os dois zásons. Caipirinhas à preços honestos, planos de dominação mundial e conspirações intercontinentais comiam soltas na mesa. Como num tradicional domingo, o simpático bar que mais parecia um pub britânico não tardou a fechar, o que fez com que os jovens retirassem-se do mesmo e voltassem em direção à pousada.

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Por volta da meia-noite, os correspondentes andavam sem pressa pelo centro. Ao mesmo tempo que voltavam para a pousada, Leandro estava à procura de souvenirs, vulgo cachacinhas, para trazer de volta para São Paulo. Graças à tal vontade, os dois resolveram parar na única loja de bebidas que estava aberta no centro àquela hora. Ao adentrar o rústico e simpático comércio, foram recebidos de maneira efusiva por um rapaz de tendências regueiras e sorriso fácil, chamado Charles. O jovem, visivelmente feliz com a chegada dos zasilhames, não tardou a apresentar o recinto, puxando seu arrastado sotaque leléque e ganhando rapidamente a simpatia dos dois rapazes. Explicou com muita propriedade ao menos cinco cachaças, todas da região de Parati, entrando em detalhes e com muita articulação, causando bastante interesse nos forasteiros. Eis que chega a última das cachaças da aula, denominada Maria Izabel. Charles até mesmo mudou de expressão ao falar sobre ela, se mostrando um tanto mais sério e dando muito mais ênfase à suas qualidades, falando com uma paixão e comprometimento que não notara-se durante as explicações acerca das outras bebidas. Charles contou que aquela era, na sua opinião, a melhor cachaça de Parati, de pouquíssima acidez, produção limitada e desenvolvida por uma folclórica senhora, detentora do mesmo nome que a bebida, veja só que coincidência. Segundo o jovem guia, durante muitos anos destilou tal elixir sozinha em sua propriedade, um sítio nos arredores da cidade. Assim como fazia com cada uma das cachaças que apresentava, Charles colocou duas pequenas amostras para Leandro e Joe provarem. Realmente, a cachacinha que mais lhes apeteceu foi ela, detentora de alta graduação alcóolica e baixa acidez, uma combinação sensacional. Muito agradecidos pela aula do atencioso rapaz, se despediram da loja e voltaram para a pousada, impressionados com o conhecimento adquirido em cerca de meia hora de estadia no pequeno comércio. Conversando sobre o ocorrido, chegaram à conclusão de que não poderiam perder a oportunidade de conhecer a mística senhora. Mais uma vez, provou-se que as melhores idéias e pautas, acerca de seja lá o que for, aparecem de maneira natural e espontânea. Viva o acaso. Depois de cumprir com o tal trabalho fotográfico, que pretendiam fazer no dia seguinte, iriam visitar o tal alambique de Maria Izabel, se ela assim permitisse. Esse era o plano para o dia seguinte.

Por motivos de síntese, vamos adiantar a fita da viagem um pouco, para o momento em que os dois correspondentes voltavam do tal trabalho fotográfico, já na hora do almoço do dia seguinte. Leandro e Jonas haviam cumprido a missão com louvor e voltavam para a cidade em clima de vitória. No meio do caminho, notaram que haviam passado em frente à um dos alambiques que Charles lhes falara no dia anterior, o da cachaça Coqueiro. Já que pretendiam visitar a Maria Izabel, acharam justíssimo fazer uma visita à sua conterrânea também. Joe realizou uma ligação telefônica para o local e teve sua visita autorizada, só alegria. Depois de passar por uma enlameada estrada de terra, chegaram ao alambique, tendo encontrado alguns trabalhadores que lhes indicaram onde seria a recepção. Deram uma volta pelo local, que era um tanto desorganizado, e chegaram num grande saguão, de decoração barroca e com uma beleza simples e minimalista. Uma simpática moça lhes atendeu, contando um pouco da história da cachaça e lhes oferecendo alguns degustes alcoólicos, que não foram negados, evidentemente. Quando iam voltando para o carro, depois de terem comprado garrafas da cachaça e visitado as dependências, com destaque para uma capela muito simpática que se encontrava do lado de fora, repararam que havia um avestruz encarando-os, bem perto do carro de Leandro. O animal chamou a atenção dos dois, lhes despertando a curiosidade de ir até bem perto dele, que estava preso atrás de um cercado de madeira. O exótico ser vivo estranhou a presença dos zasileus, que ficaram pouco mais que dois minutos observando-o antes de puxarem o bonde. A visita rendeu-lhes uma ótima experiência, mas nada que lhes emocionasse muito, era hora de voltar para a cidade, que ficava a não mais que vinte e cinco minutos do local.

Era segunda-feira, e também o segundo dia de estadia dos correspondentes zásicos nos limites do município de Parati. Até então, não haviam visto nem sinal de sol e bom tempo, preocupante para qualquer entusiasta do lazer praieiro. Já de volta à pousada, Joe pegou seu celular, ergueu-o no ar, discou o número de telefone de Maria Izabel com confiança (cedido gentilmente pelo senhor Google) e esperou que esta atendesse-o. Com voz suave e pausada, quase um cafuné sonoro, a senhora atendeu o telefone e, depois de poucas palavras de conversa entre ambos, autorizou a visita dos jovens à sua propriedade, apenas deixando claro que seria bom que eles passassem lá antes do meio-dia, pois, atarefada que é, tinha coisas para resolver de tarde. Combinadíssimo.

No dia seguinte, os zastrás acordaram cedo, tomaram um honesto café da manhã no hotel e resolveram partir em direção ao prometido alambique de Maria Izabel, era o ápice da viagem. Seus planos consistiam em visitar o local e em seguida rumar para a praia de Trindade, que ficava no caminho de volta para São Paulo, o tempo havia melhorado ligeiramente e eles tinham que aproveitá-lo de qualquer maneira. A fim de não pagar uma nova diária, fizeram o checkout logo pela manhã (anglicismos são extremamente fecais, mas nossos especialistas não conseguiram achar outro termo), depois do café, colocando suas coisas no carro e partindo em direção à dona Mabel. Eram aproximadamente 10h30 da manhã e a calmaria tomava conta da estrada e dos arredores da cidade, mas nada que não pudesse ser rompido repentinamente. Chegando cada vez mais perto, os zasóides avistaram uma blitz no meio da vazia estrada, algo intrigante naquela altura do campeonato. Quando estavam à distância de aproximadamente três charretes de uma das viaturas estacionadas, um dos dois policiais presentes na patifaria pede para Leandro parar o carro, que obedece a ordem da autoridade imediatamente. Em tom de deboche, o policial pergunta o que eles estavam fazendo e para onde iam, a resposta foi a pura verdade, afinal, iam visitar uma chachaçaria e vieram para Parati a trabalho, nenhum crime até então. Ainda arrogante, o policial verifica o RG dos dois, olha para seu companheiro de profissão, que estava do outro lado da via, e deseja um falso bom-dia aos zasilhas, que meio injuriados voltam a percorrer o seu caminho. O mapa que indicava o caminho do alambique era muito confuso e causou dúvidas nos juvenaltas, que, a todo momento, achavam que estavam seguindo-o equivocadamente. Em um determinado momento, avistaram uma tímida entrada de terra à direita da estrada e resolveram embarcar na mesma, parecia ser o local indicado pelo deus Google. A estradinha era muito apertada, em muitos momentos acabavam dando de frente com algum carro que vinha na contramão e eram obrigados a encostar no mato para dar-lhe passagem. Depois de bons cinco minutos de percurso, chegaram à uma bifurcação. Diante de tamanha escolha, não faziam a menor idéia de qual caminho pegar. Intuitivamente, optaram pelo direito, que subia em espiral por um longo morro. A subida ia liberando cada vez mais uma visão maravilhosa da praia, daquelas que não eram de areia, mas sim de vegetação, aparecendo cada vez menos tímida lá embaixo, ao final de um despenco de aproximadamente dois andares que se desenrolava à pouquíssimos metros do carro e da apertada estradilha. Quanto mais se subia, mais tinha-se a visão de outros morros, tão grandes quanto o que estavam subindo, com poucas casas ao redor das densas árvores, uma visão muito bonita, realmente. Quando achavam que a subida nunca mais ia acabar, chegaram até uma grande casa vermelha com portão. O zasáico Joe resolve sair do carro e ver se alguém poderia lhes dar alguma informação relevante. Ao adentrar a propriedade, um enorme cachorro nada amigável vem recepcioná-lo, babando desconfiança para cima do rapaz, que resolve voltar para o carro como se nada tivesse acontecido. Não parecia que ali era o alambique, deduzia-se que a Maria Izabel ficava no outro caminho, de volta à bifurcação. Voltaram pelo caminho espiral, mas não sem antes pararem por alguns minutos para contemplar a natureza do local.

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Depois de alguns minutos descendo a trilha, nossos heróis chegaram novamente à bifurcação, obviamente escolhendo o caminho da esquerda desta vez. A manobra para virar o carro em direção ao mesmo foi bastante complicada, mas enfim conseguiram cumprir a missão e partiram caminho adentro. Conforme iam adentrando o local, ficava mais claro que estavam na direção correta, montanhas de cana que iam surgindo ao longo do percurso não os deixavam pensar o contrário. Em determinado momento, avistaram uma pequena placa em formato de garrafa. Ao pararem bem perto, ali estava o rótulo da cachaça Maria Izabel. A profecia era verdade.

Sem saber ao certo o que lhes esperava e cerca de dois minutos após terem avistado a placa de boas-vindas, uma bela casa verde de estatura bem considerável ia se tornando cada vez mais visível, ficava claro que a tal visão representava o alambique se aproximando com cada vez mais nitidez em frente às suas vistas. Chegaram à uma clareira, cercada de um pequeno morro pela direita e de uma simples edícula pela esquerda, que foi gradualmente se mostrando ser o local onde os aparatos da produção da cachaça se encontravam. Um funcionário carregando um carrinho de mão recheado de cana colhida surge repentinamente, observando os forasteiros de maneira serena, o ambiente exalava algo de positivo que não estava tão presente assim na conterrânea Coqueiro. Pararam o carro a poucos metros da edícula e desceram, dando aquela olhada curiosa ao redor. A casa verde, avistada anteriormente, era impressionantemente bonita, de uma simplicidade recheada de bom gosto e ao mesmo tempo demonstrando traços incrivelmente aconchegantes e bem pensados, com firmes bases em madeira que a seguravam por sobre um pequeno barranco, formando uma varanda extremamente aprazível. O alambique era muito menor que o da cachaça Coqueiro, o que automaticamente tornava-o muito mais carismático também. Ao passo que os zasileiros ainda olhavam ao redor, uma figura pequena e serena saía de dentro da casa, chamando a atenção dos jovens, que ficaram observando-a chegar lentamente em sua direção. Era Maria Izabel, a guardiã do alambique. Aparentando não mais do que 50 anos de idade, cabelos grisalhos muito lisos, rosto sereno de traços levemente indígenas, sorriso sábio e pés descalços, surge a anfitriã, acompanhada de sua cadelinha, Sofie, que veio correndo dar as boas-vindas aos forasteiros. Logo deu para notar que a pobre e carente cadelinha não possuía um pedaço da perna direita traseira, havia sido resgatada por Mabel à beira da morte anos atrás e, infelizmente, sofrera severa gangrena. De cortar o coração. Maria se apresentou tranquilamente com muita cordialidade, não perdendo tempo em já ir levando os zasódicos em direção à edícula. De maneira bastante técnica, foi explicando alguns detalhes sobre a sua produção, que, segundo ela, até cerca de dez anos atrás não possuía luz elétrica e era completamente feita através da força da gravidade, o que tornava aquela cachaça ainda mais especial em relação às outras. Pela maneira como Maria Izabel falava, já ficava muito claro que ela tinha completo domínio de tudo que acontecia, se mostrando extremamente minuciosa e atenciosa à detalhes. O local de produção era bem apertado realmente, mas de uma organização e cuidado muito evidentes. Os zasóides se deixaram prender pelo ambiente e pelas explicações de Maria Izabel quase que em transe, era ainda só o início do passeio pela propriedade.

Terminado o edificante tour pela edícula em que o milagre da destilação acontecia, Maria convidou os zasórios para conhecer a tal casa verde que tanto os intrigava. Ao chegarem nela, que ficava a cerca de vinte metros do local anterior, foram recepcionados novamente por Sofie, que não tardou em rolar feito um barril, estacionando de barriga para cima e assim recebendo seu tão aguardado afago, sem dúvida a cadelinha mais cremosa que o Zaso Corp. já presenciou. Enquanto se entretiam com Sofie, Mabel havia ido pegar a chave da porta principal para que os zasulhos pudessem adentrar o interior do recinto, que se dividia em basicamente dois grandes cômodos: um deles era um misto de cozinha e escritório, onde pôsteres, souvenirs, estantes de arquivos, cachaças engarrafadas, pia, geladeira, armários embutidos e outros tantos aparatos domésticos conviviam em perfeita harmonia; e o outro era um galpão com grandes vigas rústicas, onde parrudos tonéis de madeira recheados até a boca de cachaça eram deixados envelhecer na mais plena paz. Alguns detalhes chamaram a atenção dos rapazes, como, por exemplo, o tom escurecido do teto do galpão, resultado da natural evaporação do álcool de dentro dos tonéis, e um belíssimo pôster da Flip, Festival Literário Internacional de Parati, feito em homenagem à nossa anfitriã e cedido gentilmente por sua ex-vizinha e fundadora do evento, a escritora britânica Liz Calder (confundida por Joe, levianamente, com Luis Caldas). Enquanto a guardiã explicava os diferentes tipos de tonéis e suas funções, um vulto felino de pêlos cor-de-tangerina surge ligeiro, como que aprovando a visita dos zasáres, era mais um dos simpáticos animais que habitavam as dependências da cachaça Maria Izabel. O interior da casa se mostrava tão aprazível quanto a fachada, quem dera o escritório zasalhista tivesse metade do carisma que o recinto possuía, ou que pelo menos existisse de verdade.

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Os assuntos iam ganhando corpo, gradualmente saindo do âmbito técnico da produção da cachaça e entrando no campo da vida pessoal de Maria Izabel. Assim sendo, a anfitriã convidou os visitantes para sentar do lado de fora, na já mencionada varanda, para que pudessem assim degustar o elixir da casa e conversar de maneira mais tranquila.

Mabel vinha de uma família muito tradicional na história da cachaça paratiense e era neta de uma das mais influentes figuras da história da cidade, Samuel Costa. Seu avô teve fundamental importância no desenvolvimento estrutural da cidade no começo do século XX, sendo o prefeito responsável por melhorias fundamentais na vida dos paratienses, como a construção da famosa ponte que liga a Praça da Matriz à Praia do Pontal e da implementação de geradores elétricos na cidade, importados diretamente de São Paulo. Tão importante quanto Samuel, foi seu pai, e bisavô de Maria Izabel, Francisco Lopes Costa, figura carismática e que, acredita-se, foi o introdutor da maçonaria na cidade (quem der uma volta no centro histórico nota rapidamente que a maior parte das casas possui simbologia maçônica). Sua família era proprietária de uma das fazendas mais importantes da história da produção cachaceira da cidade, a Murycana (conhecida como Bananal nos séculos passados). Porém, há mais de três gerações a família já havia abandonado a produção de cachaça, tendo entrado em tempos difíceis, sobretudo após a morte do avô de Mabel. Teria sido ela, muitos anos depois, que retomaria a tradição familiar com as próprias mãos.

Em tempos de níveis estrondosos de juventude, Maria Izabel vivia da venda de produtos que ela mesma plantava, como côco, limão e banana. Por falta de condições de transporte terrestre até sua propriedade, ela fazia tudo de baleeira, navegando com suas iguarias em direção aos sete cantos do município e arredores. Em meados dos anos 90, resolve vender sua antiga casa e seu barco para comprar todo o aparato necessário para fazer um alambique e se instalar no Sítio Santo Antônio, local onde a cachaça Maria Izabel é produzida com louvor, e onde nossos heróis estavam sentados naquele momento, empunhando suas cachaças e de ouvidos atentos. Apesar da tradição familiar, Mabel nunca antes havia destilado, tendo aprendido tudo na raça, indo de alambique em alambique e com a ajuda de outros produtores da região, que foram bastante solícitos com ela. Com seu espírito detalhista e perfeccionista, mesmo com as condições simplórias que seu alambique possuía em relação à outros da região, não tardou para que seu produto começasse a ser reconhecido por toda a parte.

Maria Izabel desde os primóridos adota uma série de medidas que salvaguardam a qualidade de seu produto, como moer a cana o mais rápido possível depois de colhê-la, para que bactérias fermentadoras não se atencipem à produção da cachaça e assim aumentem a acidez da mesma, e só utilizar o “coração” da bebida, dispensando o começo (cabeça) e o fim da mesma (rabo), que seriam partes do produto de menor qualidade e mais suscetíveis à acidez e álcoois ruins. Entre uma cachaça e outra servida pela anfitriã, os zasalhas ficavam cada vez mais fascinados com o quanto Mabel fazia questão de prezar pela qualidade em detrimento de quantidade, uma mentalidade cada vez mais rara e de nobreza indiscutível, ainda mais em tempos de sedução financeira e ideologias lucrativas inescrupulosas. Mabel dizia com todas as letras que não fazia questão de ter uma produção exorbitante e que o que mais lhe dava prazer era prezar por uma cachaça de cada vez mais fina estirpe. Em determinado momento, veio à tona o fato de sua cachaça estar no ranking das melhores do Brasil, mais precisamente em 11º lugar numa lista feita pela revista Playboy. Tal fato não empolga tanto a guardiã, que sabiamente tem o discernimento necessário para saber que tais listas são recheadas de tendenciosidade e falcatrua, afirmando ainda, categóricamente, que existem cachaças muito bem colocadas em rankings como esse que sequer poderiam ser comercializadas por não cumprirem com uma série de normas qualitativas e testes de qualidade, obviamente sem citar nomes. Em meio à agradabilíssima conversa, um detalhe fundamental chamou a atenção dos zasaceiros, o belo rótulo dos produtos. Mabel lhes explicou que a mesma escritora britânica que lhe cedera o belo pôster da Flip, lhe concedeu o rótulo, feito pelo seu amigo e ilustrador, Jeff Fisher, o mesmo que fez as ilustrações das capas dos livros de Harry Potter, vai brincando. Cada detalhe que envolva a cachaça passa pelo crivo de Maria Izabel, sendo que durante muitos anos era ela que fazia tudo absolutamente sozinha (evidentemente que com o passar de um certo tempo ela teve que aderir à alguns funcionários). Ela, ainda hoje em dia, quando não é total responsável por algum dos processos, supervisiona-o de perto com lupa.

Os jovens zasóides poderiam ficar lá por muito mais horas, absorvendo a ideologia purista que Maria Izabel lhes passava, mas, infelizmente, cada um teria que tomar seu rumo. Maria tinha coisas para resolver, mais precisamente levar sua filha à cidade, e os correspondentes ainda iriam dar uma encostada por Trindade, para aproveitar a ligeira melhora que o tempo lhes proporcionara. Antes de ir embora, ambos adquiriram alguns exemplares da cachaça e se despediram de Mabel, muito agradecidos pelas gentis palavras. Mabel, então, desceu em direção à outra casa, ainda maior, e que havia passado praticamente despercebida pelas lentes zasáicas, até então. Essa sim era a casa de Maria, praticamente à beira da praia e na parte mais abaixo do declive em que a casa verde se encontrava, um belo exemplar de domicílio.

Como bem disse a atenciosa anfitriã da empreitada, Maria Izabel, antes de nossos heróis partirem: “As pessoas deveriam ser como boas cachaças: fortes e com pouca acidez.” Sem dúvida nenhuma, ela se encaixa em ambas as características. Vida longa à Última das Moecanas, como Paulo de Tarso Venceslau, economista, cronista e seu amigo pessoal bem definiu.

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